Skoob - Uma nova rede social

 

 Já imaginou um Orkut em que você conhece as pessoas pelos livros que ela escolheu ler e não por comunidades?

Alguém já imaginou e criou o Skoob!

Lá podemos montar uma espécie de "estante virtual" com livros que já lemos, estamos lendo ou planejamos ler. Podemos classificar cada livro por "estrelas" e ainda escrever uma resenha sobre ele.

Fora isso há algumas opções convencionais básicas do Orkut como adicionar amigos, "seguir" alguém que de repente você achou interessante o gosto literário ou resenhas e enviar recados.

Uma ferramenta interessante para trocar idéias (embora as resenhas geralmente sejam bem curtas) e ser estimulado a ampliar do seu universo de leitura.

 * Skoob é uma rede brasileira baseada em outras experiências como Shelfari e Living Social



- Postado por Thays às 17h45

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"O Cabeleira" de Franklin Távora - um romance estranho

Sem dúvida, "O Cabeleira" é um romance romântico, pois temos o discurso do narrador que exalta a figura feminina a um grau de pureza e bondade, onde se figura o ideal capaz de mudar o mundo.Além disso, temos que o amor é o elemento essencial para mudar a natureza e o coração de um terrível bandido: o cabeleira, que dá o nome ao romance.

O menino nascido José Gomes desde muito cedo era educado pelo pai Joaquim nas artes da malvadeza.Tudo o que se considera de mais vil e torpe era incutido na cabeça do menino pelo pai, ensinando o filho a odiar, a matar, a não chorar, enfim, Joaquim queria que o filho fosse homem "de verdade".

Em oposição a figura paterna havia a mãe do garoto, Joana,que  era uma mulher doce e gentil, com uma bondade angelical e muito religiosa, que se exasperava com o marido e sofria muito com as atitudes e maldades do seu cônjuge.

Por fim, o pai sai de casa e leva o garoto consigo, o qual se torna o famigerado e vil bandido conhecido como "o cabeleira". Depois de anos de vida bandida e cruezas indescritíveis aos pobres moradores do sertão nordestino ele reencontra uma velha vizinha e com a qual prometera se casar quando crescidos.Após este encontro, o amor da garota, chamada Luísa, transforma o cabeleira, fazendo com que este seja incapaz de praticar aquelas maldades que o fizeram ser tão conhecido e temido no Sertão.No fim ele se redime completamente ao ponto de despertar a compaixão no povo que outrora o temia e o odiava. Esta é a premissa principal do romance de Franklin Távora.

O romantismo está presente?Sim.

Em algumas passagens temos o discurso puramente romântico, com a exploração do lirismo, com os personagens se expressando daquela maneira um pouco afetada, parecendo que vão chorar a cada frase dita.Contudo, a maior parte deste tipo de discurso fica a cargo do narrador, talvez pelo fato de ele estar no movimento romântico este tipo de discurso fosse o melhor modo possível de se "aproximar" dos leitores, de modo a poder expor suas idéias ao maior número possível de leitores.

O autor se utiliza da história do Cabeleira como "desculpa" para desenhar a História do sertão, descrevendo os costumes, os fatos históricos, o modo de vida e, o mais importante, a sociedade daquele tempo e sua psicologia.O livro é um retrato histórico, exaltando a terra de Franklin Távora e seus arredores.Ao descrever a sociedade ele destaca o quanto ela era religiosa e, por conseqüência, o quão pura e boa ela era (segundo o autor), com sua gente sofrida, é verdade, mas honesta de coração e comunitária.

Além disso, faz uma crítica à violência e as condições precárias da segurança pública no tempo do conto e no tempo do autor.

O mais impressionante, porém, é a questão que o autor nos coloca no fim do livro, quando os autores dos crimes são sentenciados à pena capital por enforcamento.Távora nos pergunta o porquê daquela selvageria em pleno "século das luzes", nos questiona se o motivo da barbárie cometida por Joaquim, o cabeleira e companhia não são fruto da falta de educação, da falta de emprego e da ignorância.Távora escreve:

"A justiça executou o Cabeleira por crimes que tiveram sua principal origem na ignorância e na pobreza.

Mas o responsável de males semelhantes não será primeiro que todos a sociedade que não cumpre o dever de difundir a instrução, fonte da moral, e de organizar o trabalho, fonte da riqueza?

       Se a sociedade não tem em caso nenhum o direito de aplicar a pena de morte a ninguém, muito menos tem o de aplicá‑la aos réus ignorantes e pobres, isto é, aqueles que cometem o delito sem pleno conhecimento do mal, e obrigados muitas vezes da necessidade.(...)

     Condena‑se à forca o escravo que mata o senhor, sem se atender a que, rebaixado pela condição servil, paciente do açoite diário, coberto de andrajos, quase sempre faminto, sobrecarregado com trabalhos excessivos, semelhante criatura é mais própria para o cego instrumento do desespero, do que competente para o exercício da razão. Ainda em 28 de abril do corrente ano, em uma cidade da província das Alagoas um destes infelizes padeceu o suplício capital. Por honra da civilização, um dos primeiros órgãos da imprensa do Norte, o Diário de Pernambuco lavrou contra essa cobardia jurídica o seguinte protesto: «Registramos este acontecimento com a mágoa que sói causar àqueles que amam a pátria e a humanidade a continuação entre nós da bárbara pena de morte, que, infamando, nem ao menos corrige".

        Arrastam os delinqüente. à barra dos tribunais ou ao pé dos juízes para serem interrogados sobre as circunstâncias dos crimes que cometeram. Não devia ser assim. O interrogatório principal devia ter por objeto os precedentes do culpado, o grau da sua instrução literária, a sua educação, os seus teres.

        A pobreza, que é na realidade uma desgraça, deve a sociedade atribuir o maior número dos crimes que pune e dos erros e faltas que não se julga com o direito de punir. A pobreza nunca foi nem será jamais um elemento de elevação; ela foi e será sempre um elemento de degradação social. "

Fica aí o debate desencadeado pelo autor, será que o determinismo do meio realmente impele o homem a se embrutecer? Ele é incapaz de discernir o mal porque não teve a devida instrução?Temos realmente condições de aplicar a pena capital a quem quer que seja?Ou tudo isto é temporal, ou seja, a psicologia da época pode ser considerada "atrasada" ou "simplória" para decidir tal coisa, vide os avanços que obtivemos até hoje?

Távora narra toda a trajetória do menino José Gomes, até sua transformação no temido bandido "o cabeleira", contando todas as atrocidades cometidas por ele e seu bando.Parece que ele quer fazer com que o leitor odeie o cabeleira e torça para a sua captura pelas forças do governo e a sentença que merece.Entretanto, na hora do derradeiro castigo o autor parece que pára o filme e diz: pois é amigo, apesar de todo o mal cometido pelo cabeleira, ele é mesmo o culpado???Como um tapa na nossa cara, num anticlímax tremendo, o autor coloca as questões acima diante de nós.Nada melhor do que um livro que, a princípio, parece um tanto raso, mas depois se transforma num instrumento de reflexão, de auto-conhecimento, promovendo o nosso crescimento intimo.Sinceramente, para mim, a leitura valeu a pena.



- Postado por Marcos às 20h52

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Lendo "O Cabeleira" - porque obras do Romantismo também podem ser envolventes

Quando soube que nossa próxima leitura seria de uma obra pertencente ao Romantismo no Brasil já pensei: "Ih! Deve ser um daqueles livros coberto de regionalismo que mitifica um personagem do imaginário brasileiro, com pitadas de um amorzinho clichê, frases moralistas do século XIX e descrições prolongadas!" Os resumos das escolas literárias que o colégio me fez engolir criou uma sensação de "se é da mesma escola então é tudo igual!". Um pensamento limitante.

Não que "O Cabeleira" não tenha essas características. Tem sim, mas isso não quer dizer que não seja um livro bom.

Antes de ler fui verificar a opinião de quem já havia lido. 80% delas o enquadraram como "um dos livros mais chatos que leu", "daqueles que dificilmente se teria saco pra chegar ao final" e coisas do tipo.

Tudo isso, confesso, criou uma espécie de ranço em mim que fez com que eu adiasse a leitura.

Tentei algumas vezes passar da primeira página, mas a linguagem mais antiga, com algumas palavras que eu sequer encontrei no dicionário, aumentou minha preguiça.

Apesar de toda essa propaganda negativa, passando da terceira ou quarta página me vi imersa e cativa na história.

A narrativa de Távora (que sim, contem uma quantidade considerável de descrições) tem um quê de cinematográfica.Volta e meia o autor retrata um fato na perspectiva de um personagem e no capítulo seguinte o mesmo fato, porém sob a ótica do personagem "adversário" ao primeiro, fugindo assim de uma narrativa linear e deixando a história mais interessante.

Outro aspecto digno de nota do livro é justamente o "moralismo do século XIX". O olhar do descendente de português sobre o indígena (com a descrição do "suplício atroz e cobarde" que o índio sofre com a "estóica resignação característica de sua raça"), as mulheres (seres de bom coração, com instinto de proteção "típico da maternidade", purificadora), a escravidão (que para Távora não se apresentava como um contraponto à felicidade) e a condenação da pena de morte.

O indulto que o autor oferece ao Cabeleira - aquele de bom coração que foi corrompido pela "ignorância e pobreza" - chega, em certos momentos, a ser contraditório justamente porque a seu pai (aquele que o introduziu forçadamente ao mundo da bandidagem) essa perspectiva não é adotada. A esse personagem cabe muitas vezes descrições que o animalizam e naturalizam sua "maldade".

É difícil apontar as cenas de maior emoção, pois o clima de "aventura" foi bastante envolvente. Dentre elas destacaram a emboscada a Liberato e seus filhos, o incêndio na casa das mulheres cercadas e a perseguição final de Cabeleira.

O enfado provocado pelos diálogos melosos de Luisinha com Cabeleira foi de imediato rompido pela comoção que o trecho em que o protagonista descobre a morte da amada provoca.

Apesar da curiosidade de retratar (de forma bem pouco documental e diria que até pouco verídica) um personagem histórico, considerado o antecessor do cangaço nordestino, a história, pelas características literárias do período, tinha muitas chances de ser escrita de forma chata e cansativa, porém agora me surpreendo e discordo dos 80% acima citados.

É um livro que vale a pena deixar o preconceito e a dificuldade inicial para ser lido!



- Postado por Thays às 06h34

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"O Cabeleira" em quadrinhos

 À procura de informações sobre Franklin Távora, escritor do próximo livro escolhido para ser comentado, me deparo com uma ótima surpresa: "O Cabeleira" em quadrinhos!

Sim! Lançado em meados de 2008, a HQ é inspirada no livro de Távora.

A história a princípio foi escrita por Leandro Assis e Hiroshi Maeda para um concurso de roteiros de cinema promovido pelo SESC e mais tarde foi transposta para os quadrinhos por Allan Alex.

No site oficial consta um trecho da HQ e da entrevista do desenhista ao Jô Soares (bem interessante, diga-se de passagem).

Fiquei contente pela notícia! Quem sabe assim diminui a repulsa que muitos têm pelo livro? De qualquer maneira, aqueles que leram a obra de Távora terão oportunidade de vê-la em nova linguagem e perspectiva.



- Postado por Thays às 04h48

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