Outro elemento presente em todo o livro é essa empáfia dos que detêm algum tipo de poder na sociedade.Primeiro o coronel da repartição pública, onde houve o incidente do oficio em Tupi.O coronel se sente indignado quando não consegue identificar que língua era aquela.Diz ao major que só porque estudava um francesinho ali, já se achava um sábio.Dizia que um coronel formado na academia, com notas altíssimas em tal matéria não seria afrontado daquela maneira.
Esse é só um exemplo, mas essa “empáfia” está presente em todos os poderosos, os quais tomam suas decisões não por convicção moral ou ideológica, mas calculando qual o impacto de suas decisões na imagem e no prestigio de que dispunham perante a sociedade.
Novamente, um retrato moderno do Brasil.Esse comportamento é bem recorrente na classe política em geral.
De modo que fica a duvida:como um país cresce com as decisões sendo tomadas com base na imagem, em vez da moral e idoneidade de caráter?
Mais uma vez, o livro parece ter sido escrito nos tempos atuais.
Num determinado momento Quaresma diz:”-Mas é um erro(...) não proteger as industrias nacionais”.Pois é, parece que depois de quase 100 anos essa pergunta ainda precisa ser feita...onde está o governo quando o pólo que alavanca o desenvolvimento, isto é, a indústria, precisa de ajuda para se consolidar e se tornar, no futuro, competitiva?
Noutro lugar temos:”-É curiosa essa coisa das administrações militares:as comissões são merecimento,mas só as dá aos protegidos”.Algum paralelo com a nossa realidade?
Também faz alusão aos cortiços do Rio de Janeiro e da falta de comida das populações interioranas.
Além disso, em outro ponto há uma possível sugestão de reforma agrária...
Com certeza esse é o ponto emblemático do livro.Afinal, o que isso representa?
O major foi cultivar o seu sitio, o “Sossego”, mas, apesar de seus esforços, as formigas devastaram sua produção agrícola.
Parece que as formigas representam aquilo que no começo é invisível, depois passa a ser ignorado e, no fim, aparece com força total e devasta tudo.
As formigas são tudo aquilo que consideramos pequenino:uma corrupção ali, um infração, uma transgressãozinha da lei, uma furadinha de fila, um jeitinho de não pagar uma taxa, etc.Tudo isso, separadamente, parece ser inofensivo, mas quando juntamos tudo, vemos a verdadeira praga que é.Praga que acaba por arrasar o patriotismo e, por extensão, retardar ou impedir o progresso do Brasil.
Lima Barreto também tem um certo lirismo filosófico em algumas partes do livro, principalmente nas passagens descritivas.Se bem que as descrições começam líricas e terminam com um quê de pessimismo, de amargor.
Esse é um autor genial, muito à frente de seu tempo, merecendo um destaque maior do que possui atualmente.
Por fim, o livro é uma verdadeira obra-prima, pois continua atual, moderno e instigante, independentemente da época em que foi concebido.
É incrível como Lima Barreto conseguiu construir um livro que ainda retrata o Brasil dos dias atuais.Vamos a alguns desses aspectos.
O major Policarpo Quaresma é aquele que conhece o potencial do Brasil e luta para que nosso país alcance uma elevação.Mas o que ele ganhou com isso?Nada!Como ele mesmo diz, seu tempo de vida foi perdido e, no fim, é executado pelo governo Brasileiro sob as rédeas de Floriano Peixoto, o marechal de ferro.
Isso expõe bem o que é tentar ser um patriota nesse país, é ser tachado de ingênuo, de idiota ou pior, de louco.Nós temos uma espécie de “determinismo” social, o qual no diz que o Brasil é assim mesmo e nunca vai mudar, para que então se enveredar nessa fantasia absurda de patriotismo e desenvolvimento futuro?
Tudo o que vem de fora é melhor, mais sofisticado, mais seguro.Após 500 anos de história e de uma pretensa independência, ainda temos a ideologia do colonizado, ou seja, a metrópole do momento guiará nossos rumos e suprirá nossas necessidades.Necessidades que são língua, cultura, religião, etc.Pouquíssimos traços culturais são genuinamente brasileiros, a maioria é importada e, o mais revoltante, ninguém se dá conta disso.
Lima Barreto expõe bem essa ferida em alguns episódios ao longo do livro.Primeiro a vontade do major em aprender a tocar violão e sua busca obsessiva por modinhas de viola realmente nacionais.Tristemente o major descobre que a maioria delas é importada e não retratam a nossa realidade.
Esse episódio é tocante, pois demonstra a procura de um homem por uma verdadeira expressão nacional e sua tristeza e angustia por não conseguir achá-la.
Depois o famoso caso do oficio em tupi.É a demonstração crua de como não temos sequer uma língua nacional e aquela que poderia sê-lo, o Tupi, é considerada uma língua de aborígines subdesenvolvidos.
Essa é a angustia do livro, a explicitação da nossa completa falta de identidade nacional.
O patriotismo é inútil e todo aquele que resolver abraçá-lo será devidamente fuzilado.
Como o próprio nome já diz, estamos analisando o “coração dos outros”, ou seja, as pessoas em geral.Esse personagem é um fiel amigo do major, sempre estando lá para auxiliar e ser companheiro.Violeiro de mão cheia e compositor belas modinhas é, contudo, um tanto relapso no arquivamento de sua obra.Além disso, não gosta de um “preto” violeiro que surge como seu rival musical no panorama social da época.
A metáfora de Lima Barreto pode ser essa:
Aparentemente o “coração dos outros” tem forte ligação com o patriotismo(=Quaresma), mas como não tem uma forma final e cristalizada(=o desordem no arquivamento da obra) acaba por não conseguir salvar o patriotismo do fuzilamento.Talvez pela pouca força patriótica do povo em geral, ou talvez pelo descaso generalizado por ele.
O mais chocante é a “rixa” entre o “coração dos outros” e o “preto” violeiro.Aqui, Lima Barreto denuncia o extremo preconceito racial existente no Brasil em todas as épocas de nossa história, sugerindo que o povo brasileiro diz algo como: o Brasil não precisa da contribuição do negro como parte de nossa terra, ou seja, o patriotismo dispensa essa “ajuda”.
Chocante e infame, comportamento típico de gente estúpida e ignorante, mas, infelizmente, presente na nossa sociedade.Lima Barreto expõe feridas que ainda não cicatrizaram...