
Em Belo Horizonte: estátuas em tamanho natural de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende (amigos que serviram de inspiração para compor personagens do livro “O encontro marcado”).
"Quando você faz 20 anos está de manhã olhando o sol do meio dia. Aos 60 são seis e meia da tarde e você olha a boca da noite. Mas a noite também tem seus direitos. Esses 60 anos valeram a pena. Investi na amizade, no capital erótico, e não me arrependo. A salvação está em você se dar, se aplicar aos outros. A única coisa não perdoável é não fazer. É preciso vencer esse encaramujamento narcísico, essa tendência à uteração, ao suicídio. Ser curioso. Você só se conhece conhecendo o mundo. Somos um fio nesse imenso tapete cósmico. Mas haja saco!"
Hélio Pellegrino em carta escrita 40 anos depois daquela que serviu de epígrafe para o livro “O encontro marcado” de Fernando Sabino
Fonte: http://www.releituras.com
Em alguns momentos de nossas vidas sentimos uma necessidade de preencher uma carência, um “buraquinho” que se forma em nossas almas.”Buraco” que pode ser preenchido com a leitura de um livro que nos agrade e nos complete naquele momento.
Em dias que estamos completamente derrotados, por que não alegrar nossas vidas com a leitura de um livro que nos bote para cima?
Nos dias em que estamos com carência afetiva por que não preenchê-la com a leitura dos sonetos líricos de Camões?
Vejo a Literatura como uma “cera”, que ao ser bebida entra por todos os espaços vazios do nosso Ser, solidificando-se.Então, o que era uma “peneira” totalmente amorfa num primeiro momento, posteriormente adquire uma forma definida e desprovida de ambigüidades.
Desse modo, quando estamos com algum “buraquinho” na alma (causado por um sem-número de problemas e/ou imprevistos), este pode ser tampado com a Literatura, que, assim, assume a função de completar as carências inerentes à alma humana e de aprimorar nosso interior.
Como o homem não possui uma interioridade completamente consolidada, é normal sempre apresentarmos algum tipo de carência, um “buraquinho” que sempre está lá, como a nos lembrar de que não somos tão sólidos quanto pensamos ser.Logo, vê-se a importância da Literatura na co-evolução junto ao homem, no sentido de ser uma necessidade e não uma mera atividade de lazer e divertimento.
Assim, Ler é trabalhar para se tornar uma pessoa completa, plena, e caminhar na trilha da formação do nosso ser, com o intuito de ter uma interioridade bem desenvolvida, sabendo exatamente quem somos, o que queremos e para vamos.
Se algumas pessoas trazem mudanças em nossas vidas, pessoas que nos apresentam livros deixam marcas incontestáveis!
Por mais variados que sejam os motivos que levam alguém a recomendar, emprestar ou presentear com um livro esse ato acaba sendo gerador de fortes vínculos. Vínculos que podem se dar através da ligação dessa pessoa com algum personagem – alvo de identificação e fascínio intensos que levou à recomendação da leitura -, ou com a visão que ela tem de você – quem nunca se corroeu de curiosidade quando alguém falou que quando leu um livro se lembro de você? - ou até mesmo de uma fase de sua vida.
Dentre os livros que li, alguns são bem difíceis de falar sem fazer referência a alguém.
Com “O Vampiro Lestat” e “Entrevista com o vampiro” pude refletir sobre a angústia da suposta dualidade humana. Esses livros demarcaram minha fase de leitura obrigatória escolar para a leitura por iniciativa e prazer. Costumo dizer que quem me apresentou esses livros criou um marco finalizador na formação da minha personalidade. Ela nega, mas poucos fatos são tão verdadeiros quanto esse.
O tom forte e profético de William Blake reforçou a lógica admirável – que não sou capaz de alcançar – de quem, querendo ou não, ajudou a traçar alguns rumos para minha vida.
Em “O fio da navalha” a personalidade do personagem principal que ora some, ora se revela sempre de maneira encantadora em busca pelo seu Caminho faz lembrar também quem me deu o livro...
“Como me tornei estúpido” foi o último livro apresentado por alguém que me deixou marcas. História em momento providencial que ainda ressoa na minha cabeça.
Enfim... todas essas vivências literárias “marcaram” pessoas ao mesmo tempo em que elas deram um sabor a mais nas histórias.
Por mais que ouço reclamarem, eu digo: Ganhar/ser apresentado a livros é muito bom!
A Literatura é uma forma de arte que transcende o mero fazer artístico.Seu poder reside no fato de ela transportar o individuo a um novo mundo, no qual o leitor é posto diante de novas situações e experiências de vida, de tal modo que as vivencias dos personagens, por alguns momentos, passam a ser nossas.
Desse modo, acabamos por pensar e tomar decisões que tentam mudar o rumo dos acontecimentos narrados, sendo que algumas vezes nos surpreendemos com nós mesmos pelas idéias que temos, chocados com o que seriamos capazes de fazer perante determinada situação.
Esse choque é extremamente positivo, pois provoca o conhecimento do individuo sobre si mesmo, sobre quem ele é, o que sente e como reagiria.Analisando essas emoções, podemos acentuar as qualidades de que gostamos e/ou mudar aquelas que acabamos de descobrir e que não nos agradou.
Assim, ler não é uma atividade passiva e praticada por gente ociosa, pelo contrário, lendo agimos sobre o mundo, questionando-o e criticando as bases sobre as quais se assenta.
E, acima de tudo, não é estática no tempo, produto de determinado lugar num passado remoto.Se assim o fosse, Machado de Assis já seria esquecido há muito tempo e Platão seria uma figura histórica.
Contudo, não é isso que se observa, Platão continua influenciando o pensamento moderno e a obra de Machado de Assis retrata como nunca a sociedade brasileira, bem como seus desvios e injustiças.
Por isso, ler é uma atividade construtiva do individuo e agente sobre a sociedade que nos cerca. Pratiquemos!