A mulher de Balzac

“Balzacquiana”! Quem nunca ouviu falar nesse termo? Foi por essa popularidade e por faltar um pouco mais de seis anos para chegar a esse “estado” que a leitura de “A mulher de trinta anos” me instigou.
Considerado um clássico da literatura universal a obra gerou grandes expectativas em mim, e talvez tenha sido esse o problema...
Mas vamos ao enredo!
Júlia, a personagem principal da história, é uma jovem que como todas no período, tem como meta conquistar a felicidade e a razão de viver no casamento.
Ao contrário do que se imagina em romances, o “Príncipe” escolhido não é um rapaz de classe social distinta ou um inimigo da família, porém seu pai desaconselha o envolvimento como o jovem oficial militar – Vítor D’Aiglemont – alegando fraqueza de caráter desse.
Apesar da argumentação paterna, Júlia casa-se com Vítor, e é a partir daí que todo o castelo mágico construído pela sociedade sobre o papel da mulher é desmanchado.
Provavelmente educada de maneira romântica, nossa protagonista se decepciona com o casamento, pois vê que seu amado não tem sua vida direcionada em fazê-la feliz e nem se preocupa com seus sentimentos. Acredito também que a morte de seu pai logo após seu casamento, trouxe uma espécie de sentimento de culpa, aumentando mais ainda a decepção de sua união com Vítor.
Vivendo apaticamente, apesar dos esforços limitados de seu marido, Júlia passa um período no castelo tia de Vítor, a Marquesa de Listomère-Landou. É lá que seus sentimentos a cerca do casamento são expostos em uma carta, em que conta a sua amiga as agruras do matrimônio, e aos olhos de sua nova parente que promete aconselhá-la para melhor lidar com as situações que a entristece.
É também nesse ambiente em que Júlia conhece Arthur, Lorde de Grenville, um jovem inglês que passa a admirá-la à distância e por conta disso nunca chegou a se aproximar para conhecê-la com mais profundidade.
Passado algum tempo Júlia torna-se mãe, mas apesar do que se espera da mulher e do pseudo instinto materno essa nova situação não ameniza seus sofrimentos. Muito pelo contrário! Júlia se sente pior ainda, pois acredita que filhos devam ser frutos do amor e não das convenções sociais. Nota-se durante toda a obra a aversão de Júlia por Helena, sua primeira filha. Imagino o quanto isso deve ter chocado a sociedade no momento em que o livro foi publicado!
Anos mais tarde, de volta ao círculo parisiense, Júlia percebe o desinteresse do marido e a suspeita de que esse a estaria traindo. Convencida de que deveria retomar seu papel de esposa – já que até então com o argumento de saúde debilitada Júlia se manteve afastada de qualquer relacionamento mais íntimo com o marido – nossa heroína resolve seduzir seu marido em um baile realizado na casa da suposta amante, porém é lá que seus planos são modificados, pois reencontra o Lorde de Grenville.
Após essa noite a aproximação dos dois se torna intensa, pois é a partir dela que se inicia, primeiramente, uma relação médico-paciente e também de amizade.
A dependência emocional entre os dois aumenta até enfim surgir um amor que não se realiza por pudores morais de Júlia. O amor então se torna platônico, encaixando-se perfeitamente ao ideal romântico de Júlia. Tão perfeitamente que o “mocinho” se afasta da amada, busca no suicídio a solução da sua angústia e por final morre de maneira trágica – e cá entre nós: estúpida!
Toda essa nova situação atormenta mais ainda Júlia que se isola da movimentação da capital e ainda mais de sua filha.
Aos trinta anos, Júlia volta a Paris e encanta Carlos de Vandenesse, um diplomata, que se aproxima e demonstra sua afeição.
A narrativa se entrecorta e insinua um romance entre Júlia e Carlos, além de uma nova criança, que percebendo a felicidade e paparicos de Júlia com ele, não parece ser fruto do casamento.
Nessa fase da história temos um enfoque maior na personagem Helena, primeira filha de Júlia.
Parecendo perceber a “estranha relação” de sua mãe com o considerado amigo da família, Helena provoca um acidente que mata seu irmão.
A partir daí Helena passa a ter atitudes sombrias, sempre encolhida em um canto e demonstrando um certo repúdio por sua mãe e um forte apego por seu pai.
Em sua juventude, já com mais três irmãos, a jovem decide fugir com um assassino como uma maneira de expiar a culpa do ato que trouxe pesar a sua vida.
Curiosamente é ela quem consegue ser feliz no casamento, como revela o autor no encontro de Helena com seu pai, anos depois.
O final do livro é marcado pelo desespero de Júlia em proteger sua filha mais nova e querida, Moina a não se envolver fora do casamento com o filho de Carlos Vandenesse. Acredito que a aflição demonstrada por Júlia seja causada pelo provável parentesco entre os dois amantes, porém a protagonista não conseguiu revelar para filha esse segredo, pois morre justamente quando tenta revelá-lo.
Notamos que nos últimos anos da relação matrimonial de Júlia e Vítor havia resignação de Júlia, o que justificaria os filhos que vieram da relação (ou seria da relação com Vandenesse?) e maior harmonia na família. Isso se deu justamente pela mudança de pensamento da protagonista, que antes esperava um relacionamento ultra-romântico, e agora se conforma com a realidade, como demonstra o seguinte trecho:
“[...] a felicidade nunca se encontra, para uma jovem, em uma vida romanesca, fora das idéias recebidas e, principalmente, longe de sua mãe”.



Mesmo reconhecendo a importância da obra na derrubada de alguns conceitos pré-concebidos sobre a mulher, vemos na própria narrativa de Balzac características da cultura machista, como a adjetivação que ele dá às mulheres.
Mas o que me deixou decepcionada – que me desculpem os fãs de Balzac – foi a estrutura narrativa.
Achei muito mal colocada e confusa. Primeiro porque o narrador aparece onisciente nos primeiros capítulos para depois aparecer como um personagem observador e depois retorna à narrativa onisciente, mas sem oferecer grandes detalhes sobre as emoções de Júlia, como ele fazia nos primeiros capítulos.
O período de trinta anos de Júlia foi rapidamente descrito, o que provocou certa frustração de minha parte, pois eu acreditava que seria justamente nessa parte do livro em que haveria o clímax da história.
E Carlos Vandenesse, onde foi parar?! Balzac parece esquecer do personagem! Com quem ele casou? Qual foi a reação de Júlia?
Particularmente a personagem que mais me chamou atenção foi Helena, pelo o mistério e até mesmo pela construção do personagem que pra mim foi mais atraente.
De qualquer maneira vale a pena ler esse livro!



- Postado por Thays às 17h34

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