Frases de

A obra é belíssima e por mais que eu tente "traduzi-la" sob meu olhar há passagens que só podemos sentir o impacto quando a vemos crua. Por isso deixo algumas citações:

 

“Não sabia o que queria, e sua vida afora se faria cada vez mais infeliz, agindo como se soubesse”

 

“O diabo dessa vida é que entre cem caminhos, temos de escolher apenas um e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove”

 

"Há uma fresta em minha alma por onde a substância do que sou está sempre se escapando, mas não vejo nem onde nem porquê."

 

“Todo homem é incendiário aos 20 anos e bombeiro aos 40”

 

“Vivemos segundo nossas emoções do momento, procurando localizar, descobrir uma constante e dizer: isso sou eu”

 

“Só é sincero aquilo que não se diz”

 

“A música é o silêncio em movimento”

 

“Daí a sua conduta, aberta numa dualidade irremediável: de um lado o que ele queria ser e de outro o que ele realmente era, a ponto de nem saber direito o que ele queria ser. Onde estivesse aquilo que buscava , e o que quer que fosse, o certo é que tomara o caminho mais longo”

 

“(...) certo grau de imperfeição era também indispensável à obra de arte, para dar a medida ao homem que a produziu.”

 

“(...) se enojara de viver porque viver era fácil. Era só ainda ser e já ter sido.”

 

“"De tudo ficaram três coisas: A certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro."



- Postado por Thays às 07h35

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continuação de

Esse último fato leva Eduardo a Minas Gerais e ao reencontro com seus amigos. Eduardo não mais os reconhece. Enquanto Mário tornou-se um ator político ortodoxo, Hugo tornou-se um professor cercado de “efebos” e cada vez mais frágil. Cresce a sensação de que “os três naufragavam lentamente”.


Em viagem a Ouro Preto Eduardo se vê tomado pela angústia – “a verdadeira angústia” – e resolveu modificar seus hábitos ao voltar ao Rio de Janeiro. Seu antigo modo de vida nessa cidade se restringia a festinhas e beberagens com os pseudo-amigos. Agora o jovem Marciano decide levar uma vida regrada e saudável juntamente com sua mulher, chegando mesmo a mudar de casa e conhecer um velho louco/pensador (?) – Germano – que enriqueceu a vida do casal com suas conversas.


Antonieta, a antiga madame carioca, toma gosto pela leitura sob estímulos de Germano, sendo até mesmo possível uma relação extraconjugal não explicitada no livro.


Apesar da harmonia, Eduardo volta a beber e se envolve com outra mulher, ao mesmo tempo em que sua esposa esperava o nascimento de seu primeiro filho.


Um incidente ocorre e Antonieta perde a criança. Instabilizado o casal separa-se.


Sentindo-se só e sem emprego Eduardo vai a sua terra encontrar-se com sua mãe. Encontra novamente seus antigos amigos, hoje mais “bem arranjados” do que si próprio. Não havia mais o vínculo afetivo, nem o banco da praça – palco das aventuras de juventude – e nem o encontro combinado com amigos de ginásio anos atrás para ocorrer na frente do colégio.


Em total desilusão o protagonista resolve recorrer ao suicídio por meio de ingestão de grande quantidade de medicamentos. O ato nem chegou a acontecer pois inesperadamente Vítor, um de seus amigos cariocas, o encontra antes que tudo acontecesse. Eduardo sente novamente o sabor da amizade. Uma semana depois da noite “pré-suicídio” Vítor morre em um acidente.


Novamente uma morte mexe com as emoções e com o rumo da vida de Eduardo levando-o a plena decadência e ao alcoolismo.


Tendo que sobreviver sem as “costas largas” do sogro, Eduardo é obrigado a se encaixar na vida pequena do escritório. Lá ele encontra Misael que o acolhe e apresenta seu filho.


Eduardo vê na imagem do rapaz a sua própria imagem quando jovem, e sente-se como Toledo (amigo de seu pai e iniciador – com todo o peso da palavra – ao mundo da produção literária). Após esse contato sua vida fica mais serena a ponto de fazê-lo desfazer-se de tudo e instalar-se de bom grado no convento de Frei Domingos, um dos amigos de ginásio comprometido a se encontrar na porta da escola após anos.



Associo esse final a um ciclo de angústias existenciais que uma forma ou de outra é repassada à próxima geração (personalizada no filho de Misael). Ou seja, todo o sentimento perturbador da vida só é amenizado depois de ser compartilhado e refletido em outra geração que buscará novas respostas aos mesmos questionamentos.
A história que Sabino conta me soa como uma eterna busca. A busca de si próprio que todos passamos sempre esperando por final o Encontro. O verdadeiro encontro portanto não era com seus amigos mas sim consigo mesmo, e o final do livro aponta para um novo início, agora já encontrado ou ao mesmo tendo a percepção dessa busca.



- Postado por Thays às 07h34

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continuação de "Puxando uma angústia..."

Toda essa postura de Eduardo com seus amigos não o afastou de seu pai, apesar desse insistir em ver o filho formado em Direito. A passagem em que o pai de Eduardo o questiona sobre porque fez manobras arriscadas na ponte da cidade evidencia a maneira como seu Marciano – o pai – vê seu filho:

“ - E posso saber que proveito você tira arriscando sua vida? – Seu Marciano

- Posso saber que proveito vocês tiram não arriscando a sua?

Seu Marciano mexeu-se na cadeira”

Logo depois o pai de Eduardo confessa: “Você é exatamente como eu gostaria de ter sido”.

Mas acredito que até esse momento Eduardo não chega a desvincular totalmente seus valores originais, já que, como o narrador diz, ele ia todas as semanas na missa, mesmo que criticasse a Igreja. Talvez tivesse essa postura por manter o vínculo com suas origens, a sua família.

Achei bastante engraçada a mania dos três amigos falarem por citação. Já vi muito disso nos corredores da universidade... Acredito que essa mania faça parte do processo que passamos até enraizarmos nossas próprias convicções.

A questão da sexualidade é bem interessante. No decorrer do livro tenho impressão de uma certa indecisão de Eduardo com relação a sua sexualidade, tanto na passagem em que é abordado por um senhor homossexual quanto na sua postura de maior afastamento em relação ao sexo se comparado aos boêmios de seus amigos. Seria idealização desse tipo de relação ou incerteza sobre si?

Pode parecer coluna de revista de fofoca esse questionamento, mas acho que tudo faz parte da característica do personagem.

A paixão de Eduardo por Antonieta foi outro marco de mudança de sua vida.

Achei estranho esse sentimento... não sei se posso colocar essa atração na categoria clichê de que “os opostos se atraem” ou classificar Eduardo como um pseudo-contestador já que se sente atraído por modos de vida conservadores.

Nessa fase entre a juventude e a mentalidade adulta vemos a decepção com um ídolo escritor. Nosso “herói” se vê decepcionado quando conhece pessoalmente uma pessoa idealizada, achando um absurdo ver um “poeta de gravata borboleta”!

Outra morte! O suicídio de uma estranha em um quarto de hotel no Rio de Janeiro.

Mesmo não havendo relação direta com o fato (considerando esse fato apenas como um marco) vemos progressivamente a submissão de Eduardo aos ditames da sociedade e o afastamento de seus amigos.

Casado, morando no Rio de Janeiro, cidade de sua esposa Antonieta, e sendo empregado de seu sogro notamos a insatisfação de Eduardo com seu modo de viver, cercado de obrigações e de amizades superficiais. Nota-se um certo de ar de superioridade de Eduardo em relação aos seus amigos considerando-se, juntamente com sua esposa, pessoas mais “nobres” do que aquelas pertencentes ao seu meio social.

O fato instabilizador da vida medíocre que levava foi a suspeita de traição da parte de sua mulher e a morte de seu pai. 



- Postado por Thays às 06h48

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"Puxando uma angústia" com Sabino

O que me motivou a escolher “O encontro marcado” para nossa leitura foi o prólogo desse livro retirado de uma carta de Hélio Pellegrino:

 

O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome.”

 

Fiquei encantada quando o li e coloquei o livro no topo dos livros que eu gostaria de ler.

Apesar de já ter tido contato com outras obras do Sabino há alguns anos atrás, confesso que meu entusiasmo diminuiu um pouco no início da leitura... Hoje vejo que não foi pela qualidade de escrita do autor, mas sim pela personalidade do personagem principal.

Minha expectativa era encontrar um personagem introspectivo, contido e filosófico e dou de cara com Eduardo! Um moleque que de tão egocêntrico pôs seu próprio nome em sua galinha de estimação, além de ser birrento, chantagista e manipulador! Filho único, tinha suas travessuras amenizadas pela “cegueira amorosa” dos pais que logo cediam a sua charmosa retórica.

Fora de casa vemos o comportamento de Eduardo seguindo a famosa “Lei de Gérson”, ou seja, independente de concordar ou não com o que acontecia o que importava era levar vantagem em tudo.

Vendo assim parece que ele era um bruta de um mau caráter, mas se formos menos duros e chegarmos ao final do livro percebemos que todo esse comportamento fazia parte do processo de amadurecimento do menino que nessa fase inicial mal percebia a dimensão do mundo.

Essa imaturidade foi quebrada com o suicídio de um amigo.

Tanto aqui quanto em outras passagens do livro vemos a morte marcando a transição na maneira de Eduardo se postar no mundo, dando a oportunidade de amadurecimento (“A morte nos torna mais velhos”).

Após essa primeira morte percebemos a mudança de comportamento do protagonista. Todo aquele “gênio forte” é transformado na sensação de perda de controle do que se passava a sua volta. A mudança foi tão evidente que os pais preocupados estimularam a participação do filho à prática da natação. Esse esporte individual trouxe um pouco o sentimento de posse da realidade justamente porque a vitória ou a derrota nas competições eram vinculadas apenas ao seu próprio desempenho. Assim, era como se Eduardo pudesse controlar um pouquinho do mundo, do seu mundo, pelo menos.

Já a juventude de Eduardo se enriquece com suas leituras e trocas de “filosofias” com seus amigos Mauro e Hugo.

É muito interessante essa parte do livro pois apesar da história se passar na década de 40 os jovens retratados por Sabino se assemelham – no meu ponto de vista – com os jovens atuais.
Até meados do século XX os posicionamentos políticos eram extremamente marcados. Havia uma concepção pronta e segura do mundo que fazia com que muitos jovens mergulhassem com convicções extremas das ideologias nazi-fascistas, comunistas, anarquistas, arriscando suas próprias vidas em favor delas. A partir da “geração rock’n’roll” vemos essa característica de modificando e principalmente com a derrocada da União Soviética vemos o típico comportamento pós-moderno baseado no hedonismo, na ironia aos antigos valores e no niilismo.

Sabino parece antecipar todos esses novos valores personalizando-os nos três amigos.

As frases que surgiram nos diálogos como “Salvar o mundo para quê?” , “O problema é o seguinte: Não há problema!” são no meu ponto de vista as mais representativas dessa postura. Até mesmo o “Não analisa, não” revela a necessidade do agora.

A idéia de provocar o “terrorismo” através do absurdo parece mesmo essa necessidade de quebrar a ordem e lógica antiga das coisas. A idéia do pão gigante que se desloca pela cidade me lembrou bastante a idéia dos happenings que vemos por aí.



- Postado por Thays às 06h47

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