HAMLET

(Parte 3)

 

Os diálogos de Hamlet

É incrível como nas falas dos personagens, Shakespeare nos dá tantas reflexões a respeito de variados temas relacionados à alma humana.Acho legais os mais famosos, embora tenha descoberto que alguns deles foram corrompidos e outros fora de contexto.

 

“Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode sonhar tua filosofia”

E não aquela frase: Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia.

Essa frase é um alerta a prepotência humana.A partir de certa época os homens, ao atingirem fantásticos avanços científicos, acham que já conhecem todos os mistérios da natureza.Isso ocorreu no fim do século XIX, quando os físicos chegaram a declarar que não existiam mais mistérios que eles não desvendassem.Mas vieram certas descobertas que não eram explicadas pela mecânica de Newton, daí tivemos de inventar a Física Quântica e nos achamos nos estágios iniciais de qualquer nova ciência, ou seja, temos mais perguntas do que respostas...

O mesmo com relação à investigação da alma humana, vieram os filósofos, os psicanalistas e psiquiatras, mas mesmo após tantos avanços a alma humana é um mistério insolúvel e, talvez, nunca o decifraremos.O que temos são paliativos,  como psicanálise ou Lexotan.

 

“Ser ou não ser, eis a questão”

Novamente, temos a assombrosa capacidade de Shakespeare de investigar e resumir a alma humana.

Quando estamos felizes, em situação favorável, etc, ou seja, quando vivemos os momentos que nos causam um grande prazer,queremos existir, queremos Ser.Ao passo que, quando vivemos tristezas e situações desfavoráveis, queremos morrer, não existir, logo queremos Não Ser.Realmente somos assim, vivemos esse paradoxo dia-a-dia.Acredito que o paradoxo é inerente ao nosso espírito, sem ele não há ser humano.Desse modo, Shakespeare explicita/traz à luz essa pergunta retórica que existe no nosso intimo, a qual nem sabemos que está lá, na maioria das vezes.Um dos exemplos mais expressivos é o da conquista amorosa.Ao dar o primeiro passo, ou seja, expressar os sentimentos pela pessoa amada, sentimos um terrível desconforto, não queremos passar por aquilo, desejamos não existir naquele momento, queremos Não Ser.Mas se conseguimos a conquista, queremos aproveita-la ao máximo, em todos os momentos, portanto queremos existir, queremos Ser. 

 

Hamlet segura um crânio

Também temos um equivoco quanto à cena clássica que Hamlet segura um crânio e diz “ser ou não ser, eis a questão”.Isso não ocorre, na verdade ele está em um cemitério e ao ver uma cova aberta, pega um crânio e começa a imaginar a quem ele pertencera.Disse que talvez fosse de um político ou um advogado, etc.Depois acha o crânio de um bobo da corte que ele muito estimava.Apesar de Hamlet enumerar todas as qualidades e defeitos das pessoas a quem pertencera os crânios ele deixa a entender que não importa nossa vida antes da morte.Não interessava nossos atos, palavras, se fomos bons ou não, o que importava é que quem quer que sejamos a morte é uma constante, ela é implacável.Evidenciando uma visão pessimista, ou seja, a morte é quem reina no fim.Não sei se Shakespeare era religioso ou não, mas essa cena dá a entender, na visão de um ateu, que não importa o modo como vivemos, já que após a morte todos seremos crânios enterrados ao acaso, sem castigo ou salvação após a morte.

 



- Postado por Marcos às 14h14

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HAMLET

(Parte2)

 

A Justiça como constante

Aparentemente a Justiça é uma constante presente em toda a peça.Em primeiro lugar,tanto as pessoas mais religiosas quanto as mais céticas devem concordar que a aparição de um espírito é algo extraordinário e anormal.Assim temos um indicio de que essa aparição revela uma revolta da Natureza pelo fato de um inocente ter sido assassinado.É um pedido de Justiça por parte dela, já que ela permitiu uma exceção da ordem natural das coisas, uma aberração das suas leis: a aparição de um espírito.

Desse modo,pelo conceito de Justiça, os infratores devem ser condenados por seus crimes com a morte.Isso realmente ocorre, já que Cláudio e Gertrudes morrem.Mas e quanto a Hamlet, Polônio, Laertes e Ofélia?Hamlet, ao cumprir sua vingança acabou por matar Polônio, por julga-lo mais uma das cobras que circundavam a realeza Dinamarquesa, em conseqüência disso Ofélia se mata.Então Hamlet foi responsável pelas mortes de pessoas inocentes, logo cometeu um crime e deve ser punido com a morte.Para isso a natureza escolheu Laertes como instrumento da Justiça.Mas, Laertes entrou em conluio com o rei e tentou matar Hamlet de forma desleal, isso se deveu porque ele foi manipulado pelo rei, logo ele também cometeu um crime ao se aliar com um criminoso.Assim, a natureza tratou de acabar com todos os criminosos, restabelecendo a harmonia do universo.Portanto, morrem Cláudio e Gertrudes como pena pelo assassinato do antigo rei;Polônio e Ofélia morreram por culpa de Hamlet;este morreu por causa da morte daqueles e Laertes foi um criminoso/instrumento, morrendo por seus crimes, mas também como instrumento da Justiça.

 

A loucura de Hamlet

Por quê Hamlet se valeu da loucura?Talvez pelo fato de as pessoas acharem que os loucos são incapazes de arquitetar planos e não são dignos de serem notados.Por outro lado, somos tão condicionados a pensar de um modo pré-determinado e sistemático, que temos “equações” de raciocínio e não o livre vagar das idéias.Tanto que temos uma divisão da mente: o consciente e o subconsciente, assim se deixarmos o pré-determinado (o consciente) e abraçarmos o desconhecido (o subconsciente) será que não pensaríamos de modo diferente???Descobrindo outros modos de existir e pensar??Temos tantos relatos de cientistas que têm idéias revolucionarias em momentos de descontração e até quando estão dormindo.Desprezar o subconsciente é um erro, infelizmente não temos uma idéia de grandeza da extensão desse erro.Desse modo, fica relativizada a idéia da loucura, podemos entende-la como o domínio do subconsciente sobre o consciente e como outra forma de existir.Mas então por quê os “loucos” não têm idéias revolucionarias e são “inúteis” à sociedade??Ora, não podemos nos esquecer de que as formas de expressão convencionais são ditadas pelo consciente, como nos “loucos” há predominância do subconsciente, logo eles se expressam de modos não compreensíveis por nós, pessoas “sãs”.

Se me lembro bem, mas posso estar errado, a divisão consciente/subconsciente foi feita por Freud, entretanto Shakespeare é anterior a Freud, será que o poeta Inglês antecipou o famoso psicanalista?

 

 



- Postado por Marcos às 14h13

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HAMLET

(Parte1)

 

Resumo       

 

O pai de Hamlet era o rei da Dinamarca, quando ele morre o trono do país foi assumido pelo irmão do rei, Cláudio.Este, além disso, casou-se com Gertrudes, sua cunhada e mãe de Hamlet.

Certo dia alguns guardas vêem o espírito do falecido rei vagando em certas partes do castelo real.Hamlet, pelo fato de ter tido sempre muito amor pelo pai, é comunicado do estranho fenômeno.Certa noite ele consegue falar com o espírito e lhe interroga, a fim de descobrir se era mesmo o espírito do seu falecido pai ou era um espírito maligno personificado na forma paterna.Ao convencer-se de que era mesmo o pai, ele se põe a escuta-lo e descobre que o tio,Cláudio, junto com sua mãe, Gertrudes, assassinaram o rei e este pede a Hamlet que o vingue.

Nosso herói promete ao pai que irá dar cabo à tarefa.Assim, finge-se de louco e trata de manipular os eventos a seu favor.

As pessoas passam então a adivinhar qual seria a causa da insanidade de Hamlet.Polônio, conselheiro de Cláudio, tinha um filho, Laertes e uma filha, Ofélia, por quem Hamlet era apaixonado, mas Polônio não consentia no relacionamento dos dois.Desse modo, disse ao atual rei que achava que a causa da loucura de Hamlet era essa desilusão amorosa.

A seguir, chegou ao reino uma companhia de teatro, a qual representaria uma peça.Hamlet chama o responsável pela companhia e lhe pede que represente uma pequena peça que ele escrevera, a qual era exatamente a encenação do assassinato do antigo rei dinamarquês.Por meio desse recurso ele queria ver quais seriam as reações do tio, se este demonstrasse culpa no semblante estaria aí a prova cabal de que o espírito dissera a verdade.Isso se confirma e Hamlet tem a certeza de que deve concluir sua vingança.

A seguir vai ao aposento de sua mãe e discute com ela, mas lá também estava Polônio, escondido atrás de uma cortina.Hamlet percebe isso e o mata com uma estocada de sua espada.Polônio cai morto.Hamlet decide se livrar do corpo sem que ninguém saiba, pedindo à mãe que guarde silêncio quanto ao assassinato.Mas ela acaba por contar o incidente ao rei Cláudio.

Preocupado, Cláudio manda Hamlet à Inglaterra acompanhado de dois oficiais com ordens seladas, estas diziam às autoridades inglesas que matassem Hamlet assim que desembarcasse.Mas ele descobre os planos e muda as ordens para que fossem mortos seus acompanhantes.No meio da viagem, foge do navio a bordo de um navio pirata e retorna à Dinamarca.

Nesse meio tempo Ofélia, ao saber da morte do pai, enlouquece e acaba se matando.Laertes, que estava na França, quer vingança contra Hamlet, tanto pelo assassinato do pai, quanto pelo suicídio da irmã.Laertes ao chegar na Dinamarca reúne varias pessoas insatisfeitas com Cláudio e provoca uma revolta, entra à força pelos portões do castelo real ameaçando destronar o rei.Este, habilidosamente, em cumplicidade com Laertes, bola um plano para dar fim em Hamlet.Laertes desafiaria Hamlet para um duelo de florete,mas a espada dele  teria a ponta envenenada, alem disso, no calor da batalha, entre os rounds da disputa, caso o veneno na espada não fosse inoculado em Hamlet , o rei ofereceria uma taça de vinho envenenada ao sobrinho.

O Plano dá errado em parte.A rainha bebe a taça envenenada; Hamlet e Laertes se ferem mutuamente com a espada envenenada.Mas antes de morrer Laertes diz a Hamlet que o rei foi o responsável por toda aquela armadilha, então Hamlet também dá um estocada no rei.Todos morrem envenenados.Porém, antes de morrer Hamlet pede a um amigo, que presenciou o ocorrido, que contasse a verdade sobre o que ocorreu naquela ocasião.



- Postado por Marcos às 14h11

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continuação de "Uma interpretação..."

A outra dificuldade que tive com o texto foi causado pelo seu formato. Texto em forma de teatro. Eu, acostumada com escritos em narrativa e poema, geralmente tenho às mãos a subjetividade desvelada cruamente aos meus olhos. Agora, ao ter contato com uma peça de teatro escrita não tive o recurso das descrições e a sutileza do autor nos sugando para dentro do livro através dos detalhes.
As sutilezas no texto teatral nos apresentando os fatos e sentimentos existem sim, mas é preciso olhos mais apurados para enxergar nas entrelinhas dos diálogos todo o universo que os personagens trazem dentro de si. Não estou muito treinada para conseguir captar essa energia à primeira vista, mas talvez escrevendo algumas interpretações que fiz me ajudem a ver melhor outros aspectos.

Hamlet tenta lidar com a dor da perda de seu pai ao mesmo tempo em que vê a celebração da união de sua mãe com seu tio. Acredito que casamentos desse tipo eram comuns no período, porém a proximidade da morte e do nascimento de nova união tenha sido o que primeiramente feriu Hamlet. A tentativa de substituição tanto no campo político quanto no afetivo/familiar não condizia com “digestão” do vazio deixado pelo pai.
O aparecimento do fantasma do pai e a revelação da intriga que causou seu assassinato vêm com o imperativo da vingança. É interessante notar que mesmo o fantasma percebendo a presença de sua mulher nos planos homicidas ele pede para que Hamlet não atente contra ela. Talvez o pai tenha minimizado a participação da mulher pela concepção que se tinha desse gênero no período: a eterna passividade e fraqueza, como o texto mesmo coloca. Mas creio que o matricídio seria escandaloso demais. Penso, então, que, em uma das leituras que podemos fazer é que o texto versa sobre o peso das tradições. Concordo que a maioria que estivesse no lugar de Hamlet sentiria-se tentada a vingar a morte do pai, mas o pedido insistente do pai-fantasma (notemos que não foi de primeiro impulso que Hamlet aceitou executar a vingança) e o fato dele só ficar definitivamente no mundo dos mortos depois de concluída a vingança trouxeram um peso muito grande nos atos de Hamlet. A atitude dele perante Ofélia logo após ter encontrado o espectro de seu pai me pareceu uma despedida ao traçado que ele mesmo desenhara a sua vida para seguir ao destino imposto pelo seu pai. (Ou será que o irmão de Ofélia e seu pai estavam certos quanto aos arroubos de juventude do rapaz? Acredito que não...). A partir disso Hamlet adota a máscara da loucura e cinismo como estratégica – não posso negar que adorei a acidez de suas respostas, e todo o universo que se pode extrair delas.
Talvez estivesse duvidando das palavras do espectro de seu pai quando pediu à trupe de atores encenar a história que traria a certeza da trama de seu tio. O critério para definir a certeza do assassinato seria o traço dos remorsos no rosto do assassino. Mais adiante (no 3° ato da cena três) vimos o tio de Hamlet sentindo arrependimento por ter matado seu irmão. Com isso me pergunto: Será que se não fosse o rei assassinado ter pedido vingança, o herói da história deixaria somente o sentimento de culpa, um castigo potencialmente cruel, torturar o assassino de seu pai?
Com esse questionamento ficou quase inevitável pensar que a tragédia final da história, a morte da maioria dos personagens, culpados e inocentes, poderia ser poupada caso não houvesse a pressão do antigo, da tradição (honrar a memória do seu pai) sobre aquele que poderia traçar novos caminhos.
O saldo é que Hamlet perdeu não só a vida, como foi o responsável pela morte daquela que amava.  Já Fortimbrás, rei da Noruega, movido também pelos sentimentos de retaliação, ao contrário de Hamlet, é compelido a abandonar aquilo que as “honras da tradição” pede e acaba tendo um fim menos dramático do aquele que Hamlet tem.



- Postado por Thays às 14h42

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Uma interpretação para "A tragédia de Hamlet - O príncipe da Dinamarca"

Quando vi que nosso primeiro livro a ser comentado no blog era “nada mais, nada menos” do que uma obra do Shakespeare me deu um certo medo.
Pessoalmente tenho duas dificuldades em relação ao texto. A primeira é que a obra é traduzida, do inglês arcaico ainda! A cada tradução nuances diferentes. Não é tão simples julgar sua preferência a uma obra com esse pré-requisito: de repente o brilho destacado pelo tradutor não é exatamente aquele que o autor original quis dar ou de outro tradutor lido anteriormente. Apesar de parecer algo pequeno nesse caso as palavras não são apenas “palavras, palavras, palavras”.
Minha leitura foi da tradução feita por Millôr Fernandes. Gostei porque não houve complicações para entender o sentido das frases e a leitura fluiu bem, porém minha curiosidade não deteve ao ver um ebook com outra tradução (não há créditos para o tradutor). Apesar de não tê-lo lido por completo percebi passagens que a tradução mudou o sentido da passagem, como nesse trecho em que a Rainha lê uma carta de Hamlet endereçada à Ofélia:

Tradução de Millôr Fernandes:

“Duvida que o sol seja a claridade,
Duvida de que as estrelas sejam chama,
Suspeita da mentira na verdade,
Mas não duvida deste que te ama!
Oh, cara Ofélia, sou tão ruim com os versos.
Suspiros sem inspiração.
Mas que eu te amo com um amor supremo,
Crê – meu supremo encanto.
Adeus –
Teu para todo o sempre, dama queridíssima,
Enquanto a máquina deste corpo te pertencer,
Hamlet”

Tradução que consta em um Ebook

“Duvidas do brilho das estrelas
ou até do perfume da flor
duvidas de toda a verdade
mas nunca do meu amor

por mais longe que o sol esteja,
sentimos o seu calor,
por mais difícil que seja nunca desistirei do seu amor”

As palavras do último verso mudam bastante o sentido da carta. Achei que a primeira tradução teve mais o perfil de Hamlet, porém a segunda foi bem poética e sua última estrofe mesmo retirada do contexto original não perde seu brilho.
Não sei dizer qual a solução do impasse criado pelas diversas traduções, e nem mesmo se isso se configura em um problema grave já que nós mesmos, dependendo da fase da vida em que estamos temos olhos para traduzir o mesmo texto de inúmeras formas.



- Postado por Thays às 14h41

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