Despedida e Papéis Avulsos - A quem velamos


Pelo ritmo (ou falta dele) no blog e desencontros, publico minha última postagem. Pela quantidade pífia de escritos próprios não dá pra afirmar que durante esses anos houve uma evolução da escrita, mas deixo aqui uma satisfação: meu primeiro conto com diálogos. Certamente não está menos, é bem possível que esteja mais, confuso do que os anteriores, mas se for visto como um começo está valendo.


Dicas para melhorá-lo são sempre bem vindas.


 

PA

A quem velamos



Na esfera do Sonho, em uma sala de velório, um caixão já ocupado repousa sobre a mesa enquanto algumas poucas pessoas circulam em silêncio.

-         Com licença, desculpe-me importuná-la em hora tão imprópria, mas acho que já nos conhecemos.

 

A mulher descola o olhar do chão e analisa o homem de terno escuro que recém chegara.

                                                                                                           

-         Sim, parece que sim. Fomos apresentados quando ele, em sua companhia, cruzou comigo na rua um dia desses. - disse, apontando em direção ao caixão com o queixo. Após um breve suspiro, continua: - Veja como mesmo depois de morto podemos ver sua aura de pessoa respeitosa, leal, compromissada com... Do que ri?

-         Sinceramente, o que vejo é uma pessoa bem diferente! Ali estão todos os sinais de quem passou a vida na boemia e em nenhum momento se deixou abater por apelos emocionais alheios.

-         Era isso que me diziam até eu finalmente compreender. Por isso estou aqui velando aquela pessoa que morreu sem sequer ter existido fora da minha mente.

-         É, parece que você compreendeu rápido o objetivo desta Capela. – disse ele esboçando um sorriso. - Sonho lúcido?

-         Algo assim. Sei que na vida real ele está vivo. Aliás, você parece mais a par do funcionamento deste lugar do que eu.

-         Sim. – respondeu secamente.

-         Por que continua aqui então?

-         Por acaso os funerais tradicionais têm mais lógica do que isso? Aqui, assim como quando acordados, sabemos que o repousa dentro do caixote nada mais é do que resquício das nossas expectativas, fantasias da linha temporal-imaginária que traçamos e...

-         Caixão. – disse a mulher contendo a indignação.

-         Como?

-         Você falou caixote.

-         Sim, que seja!

 

A mulher o olhou com um misto de pena e raiva, procurando palavras neutras para que seus sentimentos não transparecessem:

-         Você certamente tem problemas em lidar com a perda.

-         Tive até certo tempo... Circulei por diversas salas dessa Capela que se forma quando fechamos os olhos. Fui até em velórios de quem não conhecia...

-         Não sabia que isso era possível!

-         Mas é. As pessoas que velam vários tipos acabam se esbarrando por aí e mesmo não tendo muitos conhecidos em comum às vezes nos prestamos a apoiar um colega em algum funeral mais doloroso.

-         Mas se você não conhecia o “morto" e todos que aqui são velados são a projeção de nossas expectativas frustradas, o que via, então dentro da urna funerária?

-         Nada. Apenas um espaço vazio.

 

O diálogo que até então fluía naturalmente cessou. A mulher voltou o olhar novamente para o chão. Após alguns minutos de silêncio retomou:

 

-         Será que nós também temos uma sala em que estamos sendo velados?

-         Imagino que sim. Todos os vivos têm. Até mesmo esse sacana aí deitado!

 

Novamente o silêncio se interpôs.

Apesar de pouco conhecer a mulher, o homem esperava por uma abrupta intervenção, realizada frações de segundos depois dessa premonição.

 

- Já velamos, consciente ou inconscientemente, tantas pessoas, e nunca tivemos a iniciativa de ir à nossa própria sala, ao nosso próprio velório. Quantas pessoas teriam lá? Quantas e quais imagens nossas foram feitas e desfeitas sem que notássemos? Quantos nos carregam nas costas sob o peso da desilusão?  - disse como que para si mesma.

 

- Essa pergunta não me intriga tanto quanto saber em quantas dessas imagens criadas pelos outros nos agarramos para que o acaso não leve alguém que queremos bem ao nosso velório onírico.

 

- Você teria coragem de ir à sua sala? – ela pergunta absorta o suficiente a ponto de ele perceber que não era mais ouvido.

Inclinando-se à curiosidade da semi-desconhecida, o homem estendeu a mão e ambos caminharam rumo à saída da sala.

 

Atravessaram diversos corredores – corredores infindáveis - até cada um encontrar seu nome em uma porta. Olharam-se profundamente, desentrelaçaram as mãos, e giraram as maçanetas das portas que dariam para o caleidoscópio de faces que encontrariam em seus próprios caixões.



- Postado por Thays às 14h33

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Papéis Avulsos - Trocas

 

Trocas


- Papai, aqui está o relógio que me pediu.

Afixou o relógio na parede e caminhou para a sala.

Ainda deitado Onofre olhou para os ponteiros. Recordou de seu antigo relógio de pulso que a pouco havia estragado.

Não era à toa. Há 25 anos aqueles tic-tac haviam se compassado com sua vida.

Assim que seu relógio parou, o velho tentou consertá-lo, mas a complexidade dos mecanismos e a pouca firmeza das mãos impediram a empreitada.

Como o dinheiro que contava se tornou uma espécie de paga à solidariedade da família e suas pernas não podiam ir muito longe, pediu que lhe comprasse outro.

E lá estava. O relógio de pulso se transmutou no de parede.

Era o Tempo separado de suas pulsações que o observaria implacavelmente dia após dia.

Esse novo Tempo demarcou o início de uma era de poucas necessidades após uma trajetória de tantos desejos construídos, desconstruídos e saciados. Agora o que queria era apenas substituir o que falhava por algo que funcionasse sem complexidade, mas com precisão.

Nesse momento, lembrou-se da troca do radinho de pilha acontecida nos primeiros meses de sua ida para a casa de seu filho.

O rádio que havia levado parou de funcionar e como nada o acompanhava tão bem quanto as músicas caipiras, trilha sonora de grande parte de sua vida, pediu a substituição do aparelho.

Recebeu um pequeno rádio azul, que podia confundir-se com um brinquedo infantil.

Tentou não mostrar a decepção ao filho diante do pacote entregue.

Não teve coragem de reclamar, pois não queria desmerecer o ato daquele que o levara para a casa para que não se sentisse sozinho.

Onofre sabia que uma solidão não neutralizava a outra, que duas solidões podiam conviver como água e óleo - separadas por uma fina película; intangíveis -, porém comovido com o intento aceitou o convite.

Lá pôde ver um pouco mais seu neto. Um jovem responsável e preocupado. Um tipo que faria orgulho a qualquer família, mas que a seu avô causava pena. O velho era do tempo em que o futuro mais-que-perfeito era utilizado pela beleza de seu título e não pelo desgaste do “poderia” dos fatos muito utilizado pelos jovens daquela geração.

13:58. A cada minuto sentia-se como uma figura desbotando, uma identidade acumulada por mais de oito décadas que se esvaziava progressivamente na troca de pequenos objetos.

Após duas voltas do ponteiro, levantou-se da cama e foi atrás da nora para agradecer o objeto dado.

 

Dois anos depois encontrava-se pendurado na mesma parede, o retrato do velho não mais vivo.

A imagem de Onofre estava reforçada com cores intensas aplicadas pela impressora a laser que não pôde emprestar suas tintas aos olhos daqueles que estiveram próximos durante os últimos anos da vida do velho.



- Postado por Thays às 13h37

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Skoob - Uma nova rede social

 

 Já imaginou um Orkut em que você conhece as pessoas pelos livros que ela escolheu ler e não por comunidades?

Alguém já imaginou e criou o Skoob!

Lá podemos montar uma espécie de "estante virtual" com livros que já lemos, estamos lendo ou planejamos ler. Podemos classificar cada livro por "estrelas" e ainda escrever uma resenha sobre ele.

Fora isso há algumas opções convencionais básicas do Orkut como adicionar amigos, "seguir" alguém que de repente você achou interessante o gosto literário ou resenhas e enviar recados.

Uma ferramenta interessante para trocar idéias (embora as resenhas geralmente sejam bem curtas) e ser estimulado a ampliar do seu universo de leitura.

 * Skoob é uma rede brasileira baseada em outras experiências como Shelfari e Living Social



- Postado por Thays às 17h45

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"O Cabeleira" de Franklin Távora - um romance estranho

Sem dúvida, "O Cabeleira" é um romance romântico, pois temos o discurso do narrador que exalta a figura feminina a um grau de pureza e bondade, onde se figura o ideal capaz de mudar o mundo.Além disso, temos que o amor é o elemento essencial para mudar a natureza e o coração de um terrível bandido: o cabeleira, que dá o nome ao romance.

O menino nascido José Gomes desde muito cedo era educado pelo pai Joaquim nas artes da malvadeza.Tudo o que se considera de mais vil e torpe era incutido na cabeça do menino pelo pai, ensinando o filho a odiar, a matar, a não chorar, enfim, Joaquim queria que o filho fosse homem "de verdade".

Em oposição a figura paterna havia a mãe do garoto, Joana,que  era uma mulher doce e gentil, com uma bondade angelical e muito religiosa, que se exasperava com o marido e sofria muito com as atitudes e maldades do seu cônjuge.

Por fim, o pai sai de casa e leva o garoto consigo, o qual se torna o famigerado e vil bandido conhecido como "o cabeleira". Depois de anos de vida bandida e cruezas indescritíveis aos pobres moradores do sertão nordestino ele reencontra uma velha vizinha e com a qual prometera se casar quando crescidos.Após este encontro, o amor da garota, chamada Luísa, transforma o cabeleira, fazendo com que este seja incapaz de praticar aquelas maldades que o fizeram ser tão conhecido e temido no Sertão.No fim ele se redime completamente ao ponto de despertar a compaixão no povo que outrora o temia e o odiava. Esta é a premissa principal do romance de Franklin Távora.

O romantismo está presente?Sim.

Em algumas passagens temos o discurso puramente romântico, com a exploração do lirismo, com os personagens se expressando daquela maneira um pouco afetada, parecendo que vão chorar a cada frase dita.Contudo, a maior parte deste tipo de discurso fica a cargo do narrador, talvez pelo fato de ele estar no movimento romântico este tipo de discurso fosse o melhor modo possível de se "aproximar" dos leitores, de modo a poder expor suas idéias ao maior número possível de leitores.

O autor se utiliza da história do Cabeleira como "desculpa" para desenhar a História do sertão, descrevendo os costumes, os fatos históricos, o modo de vida e, o mais importante, a sociedade daquele tempo e sua psicologia.O livro é um retrato histórico, exaltando a terra de Franklin Távora e seus arredores.Ao descrever a sociedade ele destaca o quanto ela era religiosa e, por conseqüência, o quão pura e boa ela era (segundo o autor), com sua gente sofrida, é verdade, mas honesta de coração e comunitária.

Além disso, faz uma crítica à violência e as condições precárias da segurança pública no tempo do conto e no tempo do autor.

O mais impressionante, porém, é a questão que o autor nos coloca no fim do livro, quando os autores dos crimes são sentenciados à pena capital por enforcamento.Távora nos pergunta o porquê daquela selvageria em pleno "século das luzes", nos questiona se o motivo da barbárie cometida por Joaquim, o cabeleira e companhia não são fruto da falta de educação, da falta de emprego e da ignorância.Távora escreve:

"A justiça executou o Cabeleira por crimes que tiveram sua principal origem na ignorância e na pobreza.

Mas o responsável de males semelhantes não será primeiro que todos a sociedade que não cumpre o dever de difundir a instrução, fonte da moral, e de organizar o trabalho, fonte da riqueza?

       Se a sociedade não tem em caso nenhum o direito de aplicar a pena de morte a ninguém, muito menos tem o de aplicá‑la aos réus ignorantes e pobres, isto é, aqueles que cometem o delito sem pleno conhecimento do mal, e obrigados muitas vezes da necessidade.(...)

     Condena‑se à forca o escravo que mata o senhor, sem se atender a que, rebaixado pela condição servil, paciente do açoite diário, coberto de andrajos, quase sempre faminto, sobrecarregado com trabalhos excessivos, semelhante criatura é mais própria para o cego instrumento do desespero, do que competente para o exercício da razão. Ainda em 28 de abril do corrente ano, em uma cidade da província das Alagoas um destes infelizes padeceu o suplício capital. Por honra da civilização, um dos primeiros órgãos da imprensa do Norte, o Diário de Pernambuco lavrou contra essa cobardia jurídica o seguinte protesto: «Registramos este acontecimento com a mágoa que sói causar àqueles que amam a pátria e a humanidade a continuação entre nós da bárbara pena de morte, que, infamando, nem ao menos corrige".

        Arrastam os delinqüente. à barra dos tribunais ou ao pé dos juízes para serem interrogados sobre as circunstâncias dos crimes que cometeram. Não devia ser assim. O interrogatório principal devia ter por objeto os precedentes do culpado, o grau da sua instrução literária, a sua educação, os seus teres.

        A pobreza, que é na realidade uma desgraça, deve a sociedade atribuir o maior número dos crimes que pune e dos erros e faltas que não se julga com o direito de punir. A pobreza nunca foi nem será jamais um elemento de elevação; ela foi e será sempre um elemento de degradação social. "

Fica aí o debate desencadeado pelo autor, será que o determinismo do meio realmente impele o homem a se embrutecer? Ele é incapaz de discernir o mal porque não teve a devida instrução?Temos realmente condições de aplicar a pena capital a quem quer que seja?Ou tudo isto é temporal, ou seja, a psicologia da época pode ser considerada "atrasada" ou "simplória" para decidir tal coisa, vide os avanços que obtivemos até hoje?

Távora narra toda a trajetória do menino José Gomes, até sua transformação no temido bandido "o cabeleira", contando todas as atrocidades cometidas por ele e seu bando.Parece que ele quer fazer com que o leitor odeie o cabeleira e torça para a sua captura pelas forças do governo e a sentença que merece.Entretanto, na hora do derradeiro castigo o autor parece que pára o filme e diz: pois é amigo, apesar de todo o mal cometido pelo cabeleira, ele é mesmo o culpado???Como um tapa na nossa cara, num anticlímax tremendo, o autor coloca as questões acima diante de nós.Nada melhor do que um livro que, a princípio, parece um tanto raso, mas depois se transforma num instrumento de reflexão, de auto-conhecimento, promovendo o nosso crescimento intimo.Sinceramente, para mim, a leitura valeu a pena.



- Postado por Marcos às 20h52

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Lendo "O Cabeleira" - porque obras do Romantismo também podem ser envolventes

Quando soube que nossa próxima leitura seria de uma obra pertencente ao Romantismo no Brasil já pensei: "Ih! Deve ser um daqueles livros coberto de regionalismo que mitifica um personagem do imaginário brasileiro, com pitadas de um amorzinho clichê, frases moralistas do século XIX e descrições prolongadas!" Os resumos das escolas literárias que o colégio me fez engolir criou uma sensação de "se é da mesma escola então é tudo igual!". Um pensamento limitante.

Não que "O Cabeleira" não tenha essas características. Tem sim, mas isso não quer dizer que não seja um livro bom.

Antes de ler fui verificar a opinião de quem já havia lido. 80% delas o enquadraram como "um dos livros mais chatos que leu", "daqueles que dificilmente se teria saco pra chegar ao final" e coisas do tipo.

Tudo isso, confesso, criou uma espécie de ranço em mim que fez com que eu adiasse a leitura.

Tentei algumas vezes passar da primeira página, mas a linguagem mais antiga, com algumas palavras que eu sequer encontrei no dicionário, aumentou minha preguiça.

Apesar de toda essa propaganda negativa, passando da terceira ou quarta página me vi imersa e cativa na história.

A narrativa de Távora (que sim, contem uma quantidade considerável de descrições) tem um quê de cinematográfica.Volta e meia o autor retrata um fato na perspectiva de um personagem e no capítulo seguinte o mesmo fato, porém sob a ótica do personagem "adversário" ao primeiro, fugindo assim de uma narrativa linear e deixando a história mais interessante.

Outro aspecto digno de nota do livro é justamente o "moralismo do século XIX". O olhar do descendente de português sobre o indígena (com a descrição do "suplício atroz e cobarde" que o índio sofre com a "estóica resignação característica de sua raça"), as mulheres (seres de bom coração, com instinto de proteção "típico da maternidade", purificadora), a escravidão (que para Távora não se apresentava como um contraponto à felicidade) e a condenação da pena de morte.

O indulto que o autor oferece ao Cabeleira - aquele de bom coração que foi corrompido pela "ignorância e pobreza" - chega, em certos momentos, a ser contraditório justamente porque a seu pai (aquele que o introduziu forçadamente ao mundo da bandidagem) essa perspectiva não é adotada. A esse personagem cabe muitas vezes descrições que o animalizam e naturalizam sua "maldade".

É difícil apontar as cenas de maior emoção, pois o clima de "aventura" foi bastante envolvente. Dentre elas destacaram a emboscada a Liberato e seus filhos, o incêndio na casa das mulheres cercadas e a perseguição final de Cabeleira.

O enfado provocado pelos diálogos melosos de Luisinha com Cabeleira foi de imediato rompido pela comoção que o trecho em que o protagonista descobre a morte da amada provoca.

Apesar da curiosidade de retratar (de forma bem pouco documental e diria que até pouco verídica) um personagem histórico, considerado o antecessor do cangaço nordestino, a história, pelas características literárias do período, tinha muitas chances de ser escrita de forma chata e cansativa, porém agora me surpreendo e discordo dos 80% acima citados.

É um livro que vale a pena deixar o preconceito e a dificuldade inicial para ser lido!



- Postado por Thays às 06h34

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"O Cabeleira" em quadrinhos

 À procura de informações sobre Franklin Távora, escritor do próximo livro escolhido para ser comentado, me deparo com uma ótima surpresa: "O Cabeleira" em quadrinhos!

Sim! Lançado em meados de 2008, a HQ é inspirada no livro de Távora.

A história a princípio foi escrita por Leandro Assis e Hiroshi Maeda para um concurso de roteiros de cinema promovido pelo SESC e mais tarde foi transposta para os quadrinhos por Allan Alex.

No site oficial consta um trecho da HQ e da entrevista do desenhista ao Jô Soares (bem interessante, diga-se de passagem).

Fiquei contente pela notícia! Quem sabe assim diminui a repulsa que muitos têm pelo livro? De qualquer maneira, aqueles que leram a obra de Távora terão oportunidade de vê-la em nova linguagem e perspectiva.



- Postado por Thays às 04h48

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Sidarta de Hermann Hesse

Sidarta- de Hermann Hesse

Do menino ao Santo – O caminho do descobrimento

(Nota:utilizei os meus parcos conhecimentos sobre o zen-budismo para elaborar meu texto.Peço perdão aos Budistas se houver qualquer erro ou interpretação incorreta, os quais são frutos da minha ignorância).


Ler “Sidarta” é realmente uma experiência única.Livro do profunda espiritualidade, de humanidade, de procura de Si por si mesmo.Além da beleza poética e estilo de escrita hipinotizante de Hermann Hesse.
Profundamente ligado à Doutrina do Budismo, brinda-nos com idéias acima das ordinariamente proferidas no nosso cotidiano e nos dá um novo vislumbre sobre o que é ser realmente humano.
Narra a história de Sidarta, menino que desde cedo apresentava uma magnificência inerente, com uma personalidade magnética e grande desejo de se encontrar e saber seu papel neste mundo.
Seu grande diferencial é, sem dúvida, a coragem de deixar tudo aquilo que conhece para trás, saindo mundo afora na busca instintiva do Ser em companhia do seu fiel companheiro Govinda.
O mais cativante neste livro não é, propriamente, a jornada de Sidarta, os lugares pelos quais passou.Mas sim, a própria jornada interna de Sidarta, com seus erros e acertos, com suas dores e felicidades.Acompanhamos de perto estas transformações até a iluminação de Sidarta.
Para atingir o conhecimento supremo, decide conhecer os homens e seu modo de vida.Aprende como vivem, com pensam, etc.Delineando sua mesquinhez, seu apego por tudo aquilo que é falso, que acaba por levar o homem ao sofrimento, desvirtuando-o do caminho do Nirvana.

Com os Samaras aprende com o sofrimento extremo, até a mortificação do corpo, experimentando a fome, o frio, a dor fisica.Com eles, aprende suas primeiras habilidades: pensar, esperar e jejuar.Com a meditação pensava que iria esquecer de todas as suas dores, os sofrimentos do mundo.Contudo abandona esta seita, pois aprende que durante a meditação o que realmente ocorre é a supressão temporária destes males, passado este lapso de tempo, o ser humano volta a sentir tudo aquilo de novo.
Uma grande lição aos homens, que se perdem em prazeres mesquinhos e tolos, achando que aquilo é felicidade verdadeira.Na verdade, eles estão somente anestesiando seus espiritos por um pequeno tempo, o qual, quando passa, sofre ainda mais, porque o espirito se acostuma com aquela felicidade ilusória e efêmera, não querendo sair deste estado, quando retorna ao mundo “real” todo aquele turbilhão volta de uma só vez nos atingindo de modo certeiro.

Com a cortesã Kamala aprende a ciência do amor.Passa muitos anos com ela na aprendizagem deste intricado jogo de egos, de necessidades, de carências, de choques.Passado seu aprendizado, Sidarta não descobre a felicidade verdadeira, de certo modo acha difícil compreender o que se passa com o amor entre duas pessoas e com aquilo que se “ama”, ou seja, o outro.
Acho que aqui temos que o Amor de homem e mulher não é algo eterno, ele se desgasta, não se manifesta a toda hora e a todo momento.Além disso,o fruto do relacionamento entre Kamala e Sidarta gera um filho, que causa certa tristeza e dor a Sidarta em certo ponto de sua vida.
Neste período também resolve aprender sobre os homens e seus negócios, além de enterder sobre o que é “dinheiro”.Suas conclusões são claras desde o inicio, ou seja, a corrupção do homem pelo dinheiro, sua fúria cega e inescrupulidade para obtê-lo e para ostentá-lo.Vê de perto seu poder de alienação e de consumir nossas almas.
Acho que isto já diz tudo, o dinheiro corrompe o homem de modo deplorável, distorcendo tudo de bom que o ser humano pode fazer e realizar.

Sem dúvida o ápice de Sidarta foi sua convivência com o balseiro Vasudeva, homem simples e sem nenhuma doutrina, que, simplesmente, aprendeu a escutar o que o marulhar/vozes das águas do rio comunicavam sobre os eventos da vida.Durante os longos anos de convivência entre estes dois homens, Vasudeva sempre se mostrava como um homem acima dos outros.Foi ele quem ensinou Sidarta a parar e prestar atenção ao que o rio tinha a dizer.
Sidarta, nestes anos, aprendeu muito com o rio e com Vasudeva, os quais o guiaram durante os sofrimentos e angústias, durante sua busca pela iluminação.
Quando isso ocorre, nosso peregrino reconhece a santidade de Vasudeva e este diz que já pode ir à floresta viver com a unidade.Quando ele se vai, Sidarta pode agora ver a luz e a aureóla que brilhavam a patir deste homem.

O rio, aqui, assume um significado de suma importância, já que representa o uno, a unidade.
Ele segue o seu destino, ou seja, de sua nascente até seu “morredouro” ou foz.Também tem forma fixa e não tem, já que no momento em que o olhamos até a formulação de nosso raciocínio, o rio já mudou sua forma inúmeras vezes.Ele também “cicla”, ou seja, é água, depois evapora e chove, para virar água novamente.
Isso é uma analogia à vida, pois não existe esta dicotomia que os seres humanos são compelidos a ver em todos os lugares, ver o mundo dividido em “bem” e “mal”, “certo” e “errado”, etc.
Tudo faz parte da unidade do mundo, podemos pensar no mal como a ausência do bem, mas a exclusão de um pelo outro não provoca a aniquilação do mundo.È algo bem dificíl de se ver, eu sei, mas como Sidarta mesmo disse, as palavras não exprimem com integralidade o que um ser sente e/ou vê, só experimentando para saber.
Além disso, a vida é um ciclo infinito, o que nós sentimos agora, milhares de milhões de sers humanos também sentiram, seja dor, seja, etc.Tudo tem começo,mas o fim é um tanto nebuloso.
Logo, o rio é um elemento importante na iluminação de Sidarta, já que é uma bela analogia da vida.

Contudo, as experiências anteriores de Sidarta também foram responsáveis pela iluminação, elas não foram pontuais em seu tempo, muito pelo contrário, ajudaram Sidarta no entendimento dos homens e no seu próprio entendimento, provando que tudo é único, mas também é uno.

Honestamente é dificíl escrever sobre um livro de tamanha grandeza e com tanta espiritualidade quanto este.Leiam como uma experiência espiritual, uma busca de um homem corajoso pelo seu entendimento sobre si e sobre o mundo.
Gosto muito do último capítulo, que fica ainda melhor com o estilo de Hesse, em que Sidarta é iluminado por meio da dor e do sofrimento, ou seja, coisas que de certo modo são más, acabaram por desencadear o supremo.



- Postado por Marcos às 15h40

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O Sidarta de Herman Hesse (Parte 2)

De forma geral, Sidarta trata sobre busca do auto-conhecimento, revelando críticas a valores ocidentais - como a supervalorização do conhecimento causal - e humanos – como a vaidade e o exagerado apego às paixões. 


Parte 2 (Continuação)

 

 

Sem rumo, pensamentos suicidas passam a prevalecer em meio à náusea que aquela vida mundana provocara.

Involuntariamente, uma voz interior passa a ressoar o Om – representando a volta do princípio da unidade -, adormeceu, e quando acordou toda a pesarosa e antiga sensação passara, sentindo apenas uma espécie de amor pleno.

Reconhecendo a presença do rio que encontrara durante o período que marcou a passagem de samana pra “homem comum”, decidiu segui-lo e por fim encontrou-se com o balseiro, anteriormente já conhecido. Percebendo a serenidade de Vasudeva, o balseiro, decide torna-se seu aprendiz.

Vaduseva era um homem calado que dizia entender as mensagens que o rio transmitia. Aproveitando-se da confiança que seu novo amigo transmitia, Sidarta relata a trajetória que efetuou até então. Demonstrando ser bom ouvido, o balseiro responde que o rio gostou de Sidarta e aponta um ensinamento daquele: “há mais uma coisa que a água já te mostrou: que é bom descer, abaixar-se, procurar as profundezas.”

Com o passar dos dias, o herói da história notou semelhanças de si com o rio: apesar de diferentes as águas que passam por ele, o rio – e si próprio –, continuam sendo o mesmo. As diferentes fases nada mais eram do que variações de algo único.

Muitos anos se passaram com Sidarta vivendo na simplicidade que a vida de balseiro oferecia.

Diante de peregrinos que cruzavam o rio para o encontro de Buda, o protagonista pôde reencontrar Kamala – que havia se tornado discípula de Buda – e por surpresa, com seu próprio filho que até então desconhecia a existência. Por fatalidade do destino sua ex-amante morre e seu filho passa a viver com ele.

Desacostumado com a vida simples e com a presença paterna, seu filho demonstra comportamento mimado e inacessível.

Tomado por um misto de mágoa e preocupação, Sidarta tenta cumprir, o máximo que pode, os desejos de seu filho que cada vez se torna desrespeitoso com os velhos, até que finalmente foge de casa.

Preocupado com o filho, Sidarta resolve procurá-lo, apesar dos conselhos de Vasudeva – que dizia que não se podia poupar o filho do seu caminho e da dor - e do rio que ria-se dele.

Nessa etapa, finalmente o antigo brâmane conhece a paixão (pathos) cega e estúpida por outro ser humano.

Após a segunda tentativa de busca do filho, Sidarta desiste e ao retornar ao lar reencontra com o rio e nele vê refletia a face de seu pai. Lembra-se, então, como pôde ter sido doloroso também para seu pai o momento em que resolveu partir para seguir seu próprio caminho. Mais sereno, volta à cabana onde morava e divide o resultado de suas reflexões com o amigo:

“E todo aquele conjunto, a soma das vozes, a totalidade das metas, das ânsias, dos sofrimentos, das delícias, todo o Bem e todo o Mal, esse conjunto era o mundo. Esse conjunto era o rio dos destinos, era a música da vida.”

À medida que ouve, Vasudeva vai adquirindo cada vez mais uma aparência de transcendência, e, percebendo a sabedoria alcançada por Sidarta, decide que finalmente tinha cumprido sua missão em relação ao amigo, decidindo afastar-se e morar na floresta.

Vivendo por um período sozinho, já idoso, Sidarta reencontra com Govinda, que ainda sedento pelo saber, o instiga a contar a conclusão de sua vivência.

O diálogo nos mostra pensamentos que reafirmam suas conclusões em relação à aprendizagem, além de frases desprovidas de maqueísmos e contendo expressões de respeito a qualquer manifestação da vida, como se pode visualizar nos trechos abaixo:

“Só, talvez, que procuras demais, que de tanta busca não tens tempo para encontrar coisa alguma.”

“A sabedoria não pode ser comunicada”

“Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria”.

“Pelo contrário, no pecador já se acha contido, hoje, agora mesmo, o futuro Buda. Todo o seu porvir já está presente”

“A cada instante é perfeito. Todo e qualquer pecado traz em si a graça.”

 

E, acredito eu, a principal “máxima” apreendida: [devo] “cessar de compará-lo a qualquer outro mundo imaginário, que correspondesse aos meus desejos, a  algum tipo de perfeição brotado do meu cérebro e para que, deixando-o tal como é, me limitasse a amá-lo e a gostar de fazer parte dele”

Perplexo com tal sabedoria, ao mesmo tempo em que descontente com a ânsia pela sabedoria que ainda permanecera, Govinda mostra-se decepcionado consigo. Na tentativa de repassar suas aprendizagens ao amigo, Sidarta pede-lhe que lhe beije a testa. Nesse momento, há uma espécie de “transferência” ou visualização das experiências de Sidarta por Govinda. Ele vê pessoas e situações consideradas boas e más, experiências dolorosas e prazerosas, todas desembocando em uma percepção única de mundo.

Após essa experiência, Govinda percebe na face de seu amigo a expressão semelhante a de Buda. Sidarta havia atingido seu objetivo: unira-se ao Único, através da percepção sincera da multiplicidade.

 

 


Comentários à parte:

- Novamente Herman Hesse coloca sua preocupação sobre a multiplicidade, como podemos ver, sob outro enfoque, em “O lobo da estepe”;

- Tendo lido “Demian”, e “O lobo...” digo que esse livro é o menos “viajado” dos três, causando até mesmo certo estranhamento em alguns leitores.

- Apesar de ter gostado bastante do livro por transmitir uma sensação de equilíbrio e sabedoria, “O lobo da estepe” ainda me impressionou mais por conta do caos não resolvido.

 

 

Curiosidades:

 

- Sidarta rendeu o Prêmio Nobel de Literatura à Hesse em 1946;

- Há um filme baseado no livro produzido em 1972 - que ainda não assisti, diga-se de passagem.

 

 

capa do filme dirigido por Conrad Rooks



- Postado por Thays às 07h30

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O Sidarta de Herman Hesse (Parte 1)

De forma geral, Sidarta trata sobre busca do auto-conhecimento, revelando críticas a valores ocidentais - como a supervalorização do conhecimento causal - e humanos – como a vaidade e o exagerado apego às paixões. 

  


 Parte 1

 

Nesse livro Herman Hesse nos conta a trajetória de Sidarta, um jovem brâmane que apesar de toda perspectiva de um futuro promissor como líder religioso, resolve ceder aos seus questionamentos e incompletude, lançando-se às incertezas do mundo em busca do (auto)conhecimento.

Seu primeiro questionamento foi quanto aos rituais e as tradições repassadas por sua comunidade e antepassados. Pra que tantos ritos e símbolos se a busca e domínio de si reside em nós? – perguntava-se enquanto brâmane.

Com isso, decidiu tornar-se um sâmana, espécie de andarilho religioso, cujas principais práticas eram baseadas na meditação, privação de rituais e de bens materiais, já que toda sua existência seria devotada à busca da Verdade. Govinda, um amigo de infância, resolve acompanhá-lo, pois vê em Sidarta um sábio em potencial, colocando-o sempre em um patamar elevado em relação a outras pessoas.

O principal objetivo do protagonista era então “tornar-se vazio, vazio de sede, vazio de desejos, vazios de sonhos, vazios de alegria e de pesar. Exterminar-se, distanciando-se de si mesmo; cessar de ser um eu”, pois acreditava que apenas com o nada conseguiria despertar o “último elemento”, aquilo que dá unidade a todas as coisas. Com o passar dos dias, Sidarta percebeu que sua angústia não havia sido cessada e que no final das contas não era apenas com os sâmanas que se aprendia maneiras de não “se ser”. Todos aqueles que se mantêm com vícios, como prostitutas e bêbados, conseguiam sair de si, assim como os sâmanas conseguiam através da meditação. Porém, assim como a bebida, a meditação também tinha ação temporária, e era isso que mantinha a sensação de estacionamento que Sidarta sentia.

Já nesse período, através de diálogos com seu amigo Govinda, Sidarta tem a sensação de que a aprendizagem de maneira geral, adquirida, no caso, com os sâmanas mais velhos, nada mais era do que uma situação artificial que desvirtuava a busca interior, produzindo respostas sem raízes no self. Percebendo-se, assim, em um nível superior ao mais antigo dos sâmanas, sente que nada mais poderia aprender através dessa experiência e ao saber da notícia de Gotama, o verdadeiro Buda, resolve, junto com Govinda, despedir-se do grupo dos andarilhos para encontrar-se com o sábio.

Ao encontrar com Buda, nosso herói reconhece sua sabedoria, não através de seus ensinamentos, mas através de seus gestos, porém apoiado na reflexão sobre a questão da aprendizagem resolve seguir seu próprio caminho. Govinda, fascinado com Buda, decide manter-se ao lado do Iluminado apesar de sentir-se angustiado com a separação de seu amigo e, de certa forma, daquele que foi seu orientador por tantos anos.

Antes de partir, Sidarta tem oportunidade de conversar com Buda, e aponta críticas a sua doutrina. Buda, então, responde com serenidade que a doutrina de maneira geral serve para a “redenção do sofrimento” e não para explicações.

Após o encontro, o protagonista de nossa história parte, agora não em busca de nova doutrina, mas sim em busca de suas próprias conclusões e destino.

Caminhando só pela floresta, pôde perceber que havia cruzado a linha da juventude e se percebeu adulto por sentir que não tinha mais a necessidade de seguir um mestre. Entre suas reflexões, notou que o excesso de racionalidade o impedia de atingir seus objetivos. A busca das causas não era o caminho para o conhecimento de sua essência e conseqüente desprendimento. Observando a paisagem notou o quanto se equivocava ao sempre pensar através da dicotomia essência X aparência. 

"Quem se puser a decifrar um manuscrito, cujo significado lhe interessar, tampouco menosprezará os sinais e as letras, qualificando-os de ilusão, de casualidade, de invólucro vil, senão os lera, estudá-los e amá-los, letra por letra. Eu porém, que - almejava ler o livro do mundo e o livro da minha própria essência, desprezei os sinais e as letras, em prol de um significado que lhes atribuía de antemão. Chamei de ilusão o mundo dos fenômenos. Considerei meus olhos e minha língua apenas aparentes, casuais, desprovidos de valor. Ora, isso passou. Despertei. Despertei de fato, Nasci somente hoje."

O sentir, por fim, convertia-se em saber.

Sidarta tornou-se fascinado pelas sensações e pequenas manifestações cotidianas – coisas que anteriormente eram vistas como véu a encobrir a Verdade, porém sentiu-se só. Observava os grupos que encontrava e se perguntava se algum dia encontraria alguém com questionamentos e afinidades semelhantes.

Continuando sua trajetória, resolve, enfim, ceder ao Samsara – vida mundana - e ao chegar à cidade, busca a companhia de Kamala, uma rica e famosa cortesã com quem se encontrou na entrada da cidade. Para conseguir conquistar e aprender a arte do amor com essa cortesã teve que se desfazer de sua figura de andarilho e conseguir dinheiro e status na sociedade – exigência de Kamala que Sidarta achou bastante simples, pois dinheiro e roupa eram mais fácieis de obter do que a transcendência que anteriormente buscava.

Foi apresentado, então, a Kasmavani, um rico comerciante, e por saber ler e fazer contas foi contratado como auxiliar, porém, sob os conselhos da cortesã, nunca se colocou como subordinado e nem se deixou humilhar por ele.

Sidarta, então, desenvolveu o orgulho e conseguiu, mais tarde, tornar-se sócio daquele que foi seu patrão. Um dos motivos dessa conquista foi creditado justamente por ter desenvolvido características de samana, pois segundo o personagem:

 “Todas as pessoas são capazes de alcançar os seus objetivos, desde que saibam pensar, esperar, jejuar.”

(Jejuar serviria pra poder esperar melhor, pois se ele não soubesse jejuar aceitaria qualquer condição de subexistência.)

Apesar de envolvido com os negócios, jogava com eles como se fossem uma brincadeira, pois seu principal foco era Kamala.  De maneira geral, achava as pessoas infantis e animalescas: “Via como labutavam, sofriam, envelheciam por causa de assuntos que não lhe pareciam valer tamanho esforço e como se empenhavam em obter dinheiro, prazeres minúsculos, honrarias insignificantes. Ouvia como se censuravam e se insultavam mutuamente, como choravam suas dores que fariam rir a um samana, e notava o quanto lhes custavam certas privações que um samana nem sequer sentiria.”

Com o passar do tempo, começou a cansar-se daquela rotina de brincadeiras. Tinha vontade de entregar-se totalmente àquele mundo, mas não conseguia, pois a forte angústia voltara. Como reflexo disso, tornou-se sarcástico, avarento e incapaz de amar por não ser “tolo o suficiente”. A sensação de volúpia em ligação direta com a sensação de morte o sufocava e o medo da velhice entregue àquela vida considerada sem sentido tomava conta de si.

Certa noite sonhara com um pássaro canoro que se encontrava mudo e morto dentro de uma gaiola. No sonho, Sidarta se desfaz dele e sente o aprofundamento da angústia sentida até então.

Resolve abandonar a cidade e suas riquezas.



- Postado por Thays às 07h29

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Papéis avulsos - Latência

                     


                           Latência


          A maioria se habituara, mas ela sabia que eram tempos difíceis.

O multicolorido das prateleiras envernizava a realidade. Mesmo não alcançando os produtos que continham uma dose maior de felicidade, a maioria pensava que se estivessem em uma guerra não haveria tanta fartura.

Ainda que não utilizasse o microscópio da reflexão, Ana Luzia conseguia notar tudo aquilo.

Caminhando pelo supermercado durante as compras escolhia apenas aquilo que não a apetecia. A insipidez dos sabores era sua grande e inconsciente aliada para lhe lembrar a náusea que aquele mundo provocava.

No caixa ouviu um “bom dia” e antes que pudesse responder foi interrompida:

- Pagamento em cheque ou dinheiro?

Sem se perturbar levou o pensamento à mesa onde seriam postos os alimentos recém-adquiridos. Em volta dela sua família. A mais autêntica imitação das propagandas de margarina: a mão materna deslizando suavemente sobre os talheres enquanto o pai sorridente lê o jornal; ao lado seu irmão retratando o que parecia ser o eterno entusiasmo que os poucos anos empresta.

Com as compras em mãos, Ana Luzia caminhava em direção ao seu prédio enquanto observava as pessoas. Podia vê-las portando telefones que perpetuavam a incomunicabilidade, aparelhos musicais tocando trilhas sonoras do silêncio que impregnava o cotidiano...  E toda aparelhagem em miniatura... A cada ano menor, assim como os desejos e as verdades.

As camadas de beleza em oferta camuflavam expressões de experiências marcadas nos rostos daqueles que transitavam. E eram faces tão parecidas! Podia jurar tê-las visto em algum anúncio de TV ou outdoor.

Ela poderia fazer perguntas sobre o que via e sabia disso! Mas não ousava.

Sem aviso a vertigem tomou conta de si. Não era uma sensação nova, mas seu motivo não era tão óbvio que pudesse ser descoberto pelos médicos.

Entre o cambalear dos pés pôde perceber: não era uma simples tontura. Era a correnteza do que deveria ser a afastando daquilo que já era e que ela forçava em permanecer.

Assim, evitou apoiar-se nas paredes para recobrar o equilíbrio como sempre fazia. Simplesmente deixou-se levar e seus movimentos a guiavam para uma via oposta àquela que sempre seguiu.

Conforme ia se afastando do antigo caminho notava que seus pés retomavam a coerência e que a euforia a preenchia, pois sua visão passou a conhecer uma nitidez que nunca imaginou existir.

“Então é assim que as coisas são!” – pensou.

As cores em volta tornavam-se cada vez mais intensas, mas não feriam os olhos – pareciam mesmo acordá-los.

A sonoridade uniforme do ambiente de súbito deu lugar a um forte estampido e aos poucos sentiu em sua boca o gosto de sangue.

Luzia sorriu com a sensação de finalmente experimentar o sabor da vida. Da vida em seu estado verbal.

 



- Postado por Thays às 01h53

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Digressão

Bem aqui do lado você pode ler a proposta do blog: treinar os olhos de ler e desenvolver a escrita.

Desenvolver: isto é, não é uma seleção dos melhores escritos!

Mas por que estou escrevendo isso? Porque escrevi algo tão clichê pro blog que já vou me defendendo logo!

Se formos analisar é certamente estúpido o medo de publicar algo em um blog perdido entre milhares em um espaço em que até se tolera o “miguxês”... mas o que está em questão não é a qualidade da escrita em si, mas a revelação da minha pobreza de espírito. E isso fere o ego.


Vou precisar de uma dose a mais de cara de pau pra publicar meu conto mesmo sabendo que haverá comentários dizendo que ele é bem legal só para que eu visite o blog de quem comentou e que possivelmente nem terminou de ler o que escrevi. O ego ficaria preservado, mas felizmente o ser humano é capaz de ter auto-crítica (pelo menos a princípio).


Enfim... o post ficou bem pessoal, mas foi uma maneira de pedir desculpas pela falta de atualização e pela blogueira covarde que estou me saindo.



- Postado por Thays às 01h21

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O poder das palavras

O Poder das Palavras

 

“...palavras são erros, e os erros são seus...”-Legião Urbana

 

Como é possível uma invenção humana tão imaterial e fugaz, adquirir tamanha força e, em alguns casos, permanecer indelével na mente humana?

 

Pode parecer um lugar comum, mas uma cicatriz, um trauma físico, etc, podem deixar marcas em nossos corpos.Contudo, essas marcas não produzem mais nenhum tipo de dor, esta foi uma sensação pontual, restrita a um certo tempo, num lugar do tempo passado.Além disso, é possível remover marcas de nossos corpos cirurgicamente.

No entanto, uma palavra maldosa ou com o intuito de nos ferir, produz uma dor muito mais profunda do que a dor física.Essa dor dura tanto tempo quanto nossa lembrança persista.

Esse “ferimento” pode permanecer oculto em nossas mentes por muito tempo,mas basta uma palavra lida ou ouvida para trazer à tona toda aquele turbilhão de pensamentos retidos no fundo de nossas almas.A dor produzida pode demorar mais um tempo enorme de nossas vidas para assentar novamente,dragando-nos, de novo, para aquele universo há tanto tempo deixado para trás. A dor desencadeada pela lembrança é muito mais pungente e persistente.

 

Além disso, é incrível como uma simples palavra ao mesmo tempo fixe uma emoção humana e seja incapaz de defini-la.Explico melhor: a palavra “amor”, por exemplo, desencadeia uma série de sensações em nós, todos sabemos como é sentir o amor.Entretanto, até hoje nunca vi nenhum ser humano definir “amor” por meio de palavras.Somos os criadores, mas não conhecemos profundamente nossas criaturas.

Do mesmo modo, é admirável como um pouco de tinta impressa em um pedaço de papel ou um “pixel” na tela de um computador, possa desencadear toda essa gama de sensações, tocando fundo algumas cordas dessa lira chamada alma humana.

 

Assim, cuidado com seus “erros”, pois “os erros são seus”.Tenha cautela ao lançar palavras, e também ao recebê-las.

 



- Postado por Marcos às 16h28

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TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA- LIMA BARRETO (Parte 2)

 

A empáfia dos poderosos

Outro elemento presente em todo o livro é essa empáfia dos que detêm algum tipo de poder na sociedade.Primeiro o coronel da repartição pública, onde houve o incidente do oficio em Tupi.O coronel se sente indignado quando não consegue identificar que língua era aquela.Diz ao major que só porque estudava um francesinho ali, já se achava um sábio.Dizia que um coronel formado na academia, com notas altíssimas em tal matéria não seria afrontado daquela maneira.

Esse é só um exemplo, mas essa “empáfia” está presente em todos os poderosos, os quais tomam suas decisões não por convicção moral ou ideológica, mas calculando qual o impacto de suas decisões na imagem e no prestigio de que dispunham perante a sociedade.

Novamente, um retrato moderno do Brasil.Esse comportamento é bem recorrente na classe política em geral.

De modo que fica a duvida:como um país cresce com as decisões sendo tomadas com base na imagem, em vez da moral e idoneidade de caráter?

 

Questões sociais e políticas modernas

Mais uma vez, o livro parece ter sido escrito nos tempos atuais.

Num determinado momento Quaresma diz:”-Mas é um erro(...) não proteger as industrias nacionais”.Pois é, parece que depois de quase 100 anos essa pergunta ainda precisa ser feita...onde está o governo quando o pólo que alavanca o desenvolvimento, isto é, a indústria, precisa de ajuda para se consolidar e se tornar, no futuro, competitiva?

Noutro lugar temos:”-É curiosa essa coisa das administrações militares:as comissões são merecimento,mas só as dá aos protegidos”.Algum paralelo com a nossa realidade?

Também faz alusão aos cortiços do Rio de Janeiro e da falta de comida das populações interioranas.

Além disso, em outro ponto há uma possível sugestão de reforma agrária...

 

As formigas

Com certeza esse é o ponto emblemático do livro.Afinal, o que isso representa?

O major foi cultivar o seu sitio, o “Sossego”, mas, apesar de seus esforços, as formigas devastaram sua produção agrícola.

Parece que as formigas representam aquilo que no começo é invisível, depois passa a ser ignorado e, no fim, aparece com força total e devasta tudo.

As formigas são tudo aquilo que consideramos pequenino:uma corrupção ali, um infração, uma transgressãozinha da lei, uma furadinha de fila, um jeitinho de não pagar uma taxa, etc.Tudo isso, separadamente, parece ser inofensivo, mas quando juntamos tudo, vemos a verdadeira praga que é.Praga que acaba por arrasar o patriotismo e, por extensão, retardar ou impedir o progresso do Brasil.

 

Outras considerações

Lima Barreto também tem um certo lirismo filosófico em algumas partes do livro, principalmente nas passagens descritivas.Se bem que as descrições começam líricas e terminam com um quê de pessimismo, de amargor.

Esse é um autor genial, muito à frente de seu tempo, merecendo um destaque maior do que possui atualmente.

Por fim, o livro é uma verdadeira obra-prima, pois continua atual, moderno e instigante, independentemente da época em que foi concebido.

 

 



- Postado por Marcos às 23h51

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TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA- LIMA BARRETO (Parte 1)

 

É incrível como Lima Barreto conseguiu construir um livro que ainda retrata o Brasil dos dias atuais.Vamos a alguns desses aspectos.

 

Quaresma é o Patriotismo inútil

O major Policarpo Quaresma é aquele que conhece o potencial do Brasil e luta para que nosso país alcance uma elevação.Mas o que ele ganhou com isso?Nada!Como ele mesmo diz, seu tempo de vida foi perdido e, no fim, é executado pelo governo Brasileiro sob as rédeas de Floriano Peixoto, o marechal de ferro.

Isso expõe bem o que é tentar ser um patriota nesse país, é ser tachado de ingênuo, de idiota ou pior, de louco.Nós temos uma espécie de “determinismo” social, o qual no diz que o Brasil é assim mesmo e nunca vai mudar, para que então se enveredar nessa fantasia absurda de patriotismo e desenvolvimento futuro?

Tudo o que vem de fora é melhor, mais sofisticado, mais seguro.Após 500 anos de história e de uma pretensa independência, ainda temos a ideologia do colonizado, ou seja, a metrópole do momento guiará nossos rumos e suprirá nossas necessidades.Necessidades que são língua, cultura, religião, etc.Pouquíssimos traços culturais são genuinamente brasileiros, a maioria é importada e, o mais revoltante, ninguém se dá conta disso.

Lima Barreto expõe bem essa ferida em alguns episódios ao longo do livro.Primeiro a vontade do major em aprender a tocar violão e sua busca obsessiva por modinhas de viola realmente nacionais.Tristemente o major descobre que a maioria delas é importada e não retratam a nossa realidade.

Esse episódio é tocante, pois demonstra a procura de um homem por uma verdadeira expressão nacional e sua tristeza e angustia por não conseguir achá-la.

Depois o famoso caso do oficio em tupi.É a demonstração crua de como não temos sequer uma língua nacional e aquela que poderia sê-lo, o Tupi, é considerada uma língua de aborígines subdesenvolvidos.

Essa é a angustia do livro, a explicitação da nossa completa falta de identidade nacional.

O patriotismo é inútil e todo aquele que resolver abraçá-lo será devidamente fuzilado.

 

Ricardo Coração dos Outros

Como o próprio nome já diz, estamos analisando o “coração dos outros”, ou seja, as pessoas em geral.Esse personagem é um fiel amigo do major, sempre estando lá para auxiliar e ser companheiro.Violeiro de mão cheia e compositor belas modinhas é, contudo, um tanto relapso no arquivamento de sua obra.Além disso, não gosta de um “preto” violeiro que surge como seu rival musical no panorama social da época.

A metáfora de Lima Barreto pode ser essa:

Aparentemente o “coração dos outros” tem forte ligação com o patriotismo(=Quaresma), mas como não tem uma forma final e cristalizada(=o desordem no arquivamento da obra) acaba por não conseguir salvar o patriotismo do fuzilamento.Talvez pela pouca força patriótica do povo em geral, ou talvez pelo descaso generalizado por ele.

O mais chocante é a “rixa” entre o “coração dos outros” e o “preto” violeiro.Aqui, Lima Barreto denuncia o extremo preconceito racial existente no Brasil em todas as épocas de nossa história, sugerindo que o povo brasileiro diz algo como: o Brasil não precisa da contribuição do negro como parte de nossa terra, ou seja, o patriotismo dispensa essa “ajuda”.

Chocante e infame, comportamento típico de gente estúpida e ignorante, mas, infelizmente, presente na nossa sociedade.Lima Barreto expõe feridas que ainda não cicatrizaram...

 



- Postado por Marcos às 23h50

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Que tal ouvir um livro?

Não, não digitei errado... Escrevi OUVIR um livro mesmo!

Depois do e-book (um grande quebra-galho para todos aqueles que querem ler mais livros do que seu bolso permite pagar) a novidade agora são os audiobooks.

Provavelmente (chutando por alto) a iniciativa tenha surgido com a proposta de socializar obras para portadores de deficiência visual e hoje em dia se tornou uma maneira prática e quase milagrosa para aquelas pessoas que precisam ler além de cuidar da(o) saúde-estética-filhos-relacionamento amoroso-higiene pessoal e da casa-locomoção além de trabalhar e estudar (ufa!), podendo carregar a leitura em seu mp3 player, celular ou qualquer parafernália tecnológica que o valha!

Parte dos audiolivros que encontrei pode ser acessado de forma gratuita, porém começa a nascer um mercado para venda dessa nova maneira de “ler” (http://www.audiolivro.com.br).

Curiosa e seduzida pela propaganda resolvi experimentar e ouvir trechos de dois livros. Um dele foi a amostra de “A mulher que escreveu a bíblia” (Moacyr Scliar), encontrado no site citado acima e “Triste fim de Policarpo Quaresma”, recolhido gratuitamente através do site www.4shared.com .

Minha impressão é de que ou os audiolivros não terão futuro ou eu tenho sério problema de déficit de atenção!

Sinceramente achei muito ruim me concentrar na história quando o tempo inteiro estou cercada de apelos, principalmente visuais, me desviando do enredo! Não tem jeito! Aquelas duas páginas tem um poder de nos absorver que apenas uma voz vinda do “além” não conseguirá substituir!

Sem contar a economia de exercício imaginativo que temos ouvindo a história!

Com um narrador onisciente talvez o problema não seja tão grande, mas quando o narrador é também um personagem fica muito estranho ter já dada a entonação e até o timbre da voz de uma personalidade que provavelmente terá incontáveis facetas para cada “leitor com olhos” (e não com os ouvidos - ?!).

O engraçado é geralmente crianças adoram ouvir histórias... Provavelmente eu era uma delas, mas hoje...Talvez minha visão tenha sido mais treinada para captar sutilezas do que minha audição...

É... de repente ouvir um livro pode ser um bom exercício... Ou não...



- Postado por Thays às 21h05

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