De forma geral, Sidarta trata sobre busca do auto-conhecimento, revelando críticas a valores ocidentais - como a supervalorização do conhecimento causal - e humanos – como a vaidade e o exagerado apego às paixões.
Parte 2 (Continuação)
Sem rumo, pensamentos suicidas passam a prevalecer em meio à náusea que aquela vida mundana provocara.
Involuntariamente, uma voz interior passa a ressoar o Om – representando a volta do princípio da unidade -, adormeceu, e quando acordou toda a pesarosa e antiga sensação passara, sentindo apenas uma espécie de amor pleno.
Reconhecendo a presença do rio que encontrara durante o período que marcou a passagem de samana pra “homem comum”, decidiu segui-lo e por fim encontrou-se com o balseiro, anteriormente já conhecido. Percebendo a serenidade de Vasudeva, o balseiro, decide torna-se seu aprendiz.
Vaduseva era um homem calado que dizia entender as mensagens que o rio transmitia. Aproveitando-se da confiança que seu novo amigo transmitia, Sidarta relata a trajetória que efetuou até então. Demonstrando ser bom ouvido, o balseiro responde que o rio gostou de Sidarta e aponta um ensinamento daquele: “há mais uma coisa que a água já te mostrou: que é bom descer, abaixar-se, procurar as profundezas.”
Com o passar dos dias, o herói da história notou semelhanças de si com o rio: apesar de diferentes as águas que passam por ele, o rio – e si próprio –, continuam sendo o mesmo. As diferentes fases nada mais eram do que variações de algo único.
Muitos anos se passaram com Sidarta vivendo na simplicidade que a vida de balseiro oferecia.
Diante de peregrinos que cruzavam o rio para o encontro de Buda, o protagonista pôde reencontrar Kamala – que havia se tornado discípula de Buda – e por surpresa, com seu próprio filho que até então desconhecia a existência. Por fatalidade do destino sua ex-amante morre e seu filho passa a viver com ele.
Desacostumado com a vida simples e com a presença paterna, seu filho demonstra comportamento mimado e inacessível.
Tomado por um misto de mágoa e preocupação, Sidarta tenta cumprir, o máximo que pode, os desejos de seu filho que cada vez se torna desrespeitoso com os velhos, até que finalmente foge de casa.
Preocupado com o filho, Sidarta resolve procurá-lo, apesar dos conselhos de Vasudeva – que dizia que não se podia poupar o filho do seu caminho e da dor - e do rio que ria-se dele.
Nessa etapa, finalmente o antigo brâmane conhece a paixão (pathos) cega e estúpida por outro ser humano.
Após a segunda tentativa de busca do filho, Sidarta desiste e ao retornar ao lar reencontra com o rio e nele vê refletia a face de seu pai. Lembra-se, então, como pôde ter sido doloroso também para seu pai o momento em que resolveu partir para seguir seu próprio caminho. Mais sereno, volta à cabana onde morava e divide o resultado de suas reflexões com o amigo:
“E todo aquele conjunto, a soma das vozes, a totalidade das metas, das ânsias, dos sofrimentos, das delícias, todo o Bem e todo o Mal, esse conjunto era o mundo. Esse conjunto era o rio dos destinos, era a música da vida.”
À medida que ouve, Vasudeva vai adquirindo cada vez mais uma aparência de transcendência, e, percebendo a sabedoria alcançada por Sidarta, decide que finalmente tinha cumprido sua missão em relação ao amigo, decidindo afastar-se e morar na floresta.
Vivendo por um período sozinho, já idoso, Sidarta reencontra com Govinda, que ainda sedento pelo saber, o instiga a contar a conclusão de sua vivência.
O diálogo nos mostra pensamentos que reafirmam suas conclusões em relação à aprendizagem, além de frases desprovidas de maqueísmos e contendo expressões de respeito a qualquer manifestação da vida, como se pode visualizar nos trechos abaixo:
“Só, talvez, que procuras demais, que de tanta busca não tens tempo para encontrar coisa alguma.”
“A sabedoria não pode ser comunicada”
“Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria”.
“Pelo contrário, no pecador já se acha contido, hoje, agora mesmo, o futuro Buda. Todo o seu porvir já está presente”
“A cada instante é perfeito. Todo e qualquer pecado traz em si a graça.”
E, acredito eu, a principal “máxima” apreendida: [devo] “cessar de compará-lo a qualquer outro mundo imaginário, que correspondesse aos meus desejos, a algum tipo de perfeição brotado do meu cérebro e para que, deixando-o tal como é, me limitasse a amá-lo e a gostar de fazer parte dele”
Perplexo com tal sabedoria, ao mesmo tempo em que descontente com a ânsia pela sabedoria que ainda permanecera, Govinda mostra-se decepcionado consigo. Na tentativa de repassar suas aprendizagens ao amigo, Sidarta pede-lhe que lhe beije a testa. Nesse momento, há uma espécie de “transferência” ou visualização das experiências de Sidarta por Govinda. Ele vê pessoas e situações consideradas boas e más, experiências dolorosas e prazerosas, todas desembocando em uma percepção única de mundo.
Após essa experiência, Govinda percebe na face de seu amigo a expressão semelhante a de Buda. Sidarta havia atingido seu objetivo: unira-se ao Único, através da percepção sincera da multiplicidade.
Comentários à parte:
- Novamente Herman Hesse coloca sua preocupação sobre a multiplicidade, como podemos ver, sob outro enfoque, em “O lobo da estepe”;
- Tendo lido “Demian”, e “O lobo...” digo que esse livro é o menos “viajado” dos três, causando até mesmo certo estranhamento em alguns leitores.
- Apesar de ter gostado bastante do livro por transmitir uma sensação de equilíbrio e sabedoria, “O lobo da estepe” ainda me impressionou mais por conta do caos não resolvido.
Curiosidades:
- Sidarta rendeu o Prêmio Nobel de Literatura à Hesse em 1946;
- Há um filme baseado no livro produzido em 1972 - que ainda não assisti, diga-se de passagem.

capa do filme dirigido por Conrad Rooks
De forma geral, Sidarta trata sobre busca do auto-conhecimento, revelando críticas a valores ocidentais - como a supervalorização do conhecimento causal - e humanos – como a vaidade e o exagerado apego às paixões.
Nesse livro Herman Hesse nos conta a trajetória de Sidarta, um jovem brâmane que apesar de toda perspectiva de um futuro promissor como líder religioso, resolve ceder aos seus questionamentos e incompletude, lançando-se às incertezas do mundo em busca do (auto)conhecimento.
Seu primeiro questionamento foi quanto aos rituais e as tradições repassadas por sua comunidade e antepassados. Pra que tantos ritos e símbolos se a busca e domínio de si reside em nós? – perguntava-se enquanto brâmane.
Com isso, decidiu tornar-se um sâmana, espécie de andarilho religioso, cujas principais práticas eram baseadas na meditação, privação de rituais e de bens materiais, já que toda sua existência seria devotada à busca da Verdade. Govinda, um amigo de infância, resolve acompanhá-lo, pois vê em Sidarta um sábio em potencial, colocando-o sempre em um patamar elevado em relação a outras pessoas.
O principal objetivo do protagonista era então “tornar-se vazio, vazio de sede, vazio de desejos, vazios de sonhos, vazios de alegria e de pesar. Exterminar-se, distanciando-se de si mesmo; cessar de ser um eu”, pois acreditava que apenas com o nada conseguiria despertar o “último elemento”, aquilo que dá unidade a todas as coisas. Com o passar dos dias, Sidarta percebeu que sua angústia não havia sido cessada e que no final das contas não era apenas com os sâmanas que se aprendia maneiras de não “se ser”. Todos aqueles que se mantêm com vícios, como prostitutas e bêbados, conseguiam sair de si, assim como os sâmanas conseguiam através da meditação. Porém, assim como a bebida, a meditação também tinha ação temporária, e era isso que mantinha a sensação de estacionamento que Sidarta sentia.
Já nesse período, através de diálogos com seu amigo Govinda, Sidarta tem a sensação de que a aprendizagem de maneira geral, adquirida, no caso, com os sâmanas mais velhos, nada mais era do que uma situação artificial que desvirtuava a busca interior, produzindo respostas sem raízes no self. Percebendo-se, assim, em um nível superior ao mais antigo dos sâmanas, sente que nada mais poderia aprender através dessa experiência e ao saber da notícia de Gotama, o verdadeiro Buda, resolve, junto com Govinda, despedir-se do grupo dos andarilhos para encontrar-se com o sábio.
Ao encontrar com Buda, nosso herói reconhece sua sabedoria, não através de seus ensinamentos, mas através de seus gestos, porém apoiado na reflexão sobre a questão da aprendizagem resolve seguir seu próprio caminho. Govinda, fascinado com Buda, decide manter-se ao lado do Iluminado apesar de sentir-se angustiado com a separação de seu amigo e, de certa forma, daquele que foi seu orientador por tantos anos.
Antes de partir, Sidarta tem oportunidade de conversar com Buda, e aponta críticas a sua doutrina. Buda, então, responde com serenidade que a doutrina de maneira geral serve para a “redenção do sofrimento” e não para explicações.
Após o encontro, o protagonista de nossa história parte, agora não em busca de nova doutrina, mas sim em busca de suas próprias conclusões e destino.
Caminhando só pela floresta, pôde perceber que havia cruzado a linha da juventude e se percebeu adulto por sentir que não tinha mais a necessidade de seguir um mestre. Entre suas reflexões, notou que o excesso de racionalidade o impedia de atingir seus objetivos. A busca das causas não era o caminho para o conhecimento de sua essência e conseqüente desprendimento. Observando a paisagem notou o quanto se equivocava ao sempre pensar através da dicotomia essência X aparência.
"Quem se puser a decifrar um manuscrito, cujo significado lhe interessar, tampouco menosprezará os sinais e as letras, qualificando-os de ilusão, de casualidade, de invólucro vil, senão os lera, estudá-los e amá-los, letra por letra. Eu porém, que - almejava ler o livro do mundo e o livro da minha própria essência, desprezei os sinais e as letras, em prol de um significado que lhes atribuía de antemão. Chamei de ilusão o mundo dos fenômenos. Considerei meus olhos e minha língua apenas aparentes, casuais, desprovidos de valor. Ora, isso passou. Despertei. Despertei de fato, Nasci somente hoje."
O sentir, por fim, convertia-se em saber.
Sidarta tornou-se fascinado pelas sensações e pequenas manifestações cotidianas – coisas que anteriormente eram vistas como véu a encobrir a Verdade, porém sentiu-se só. Observava os grupos que encontrava e se perguntava se algum dia encontraria alguém com questionamentos e afinidades semelhantes.
Continuando sua trajetória, resolve, enfim, ceder ao Samsara – vida mundana - e ao chegar à cidade, busca a companhia de Kamala, uma rica e famosa cortesã com quem se encontrou na entrada da cidade. Para conseguir conquistar e aprender a arte do amor com essa cortesã teve que se desfazer de sua figura de andarilho e conseguir dinheiro e status na sociedade – exigência de Kamala que Sidarta achou bastante simples, pois dinheiro e roupa eram mais fácieis de obter do que a transcendência que anteriormente buscava.
Foi apresentado, então, a Kasmavani, um rico comerciante, e por saber ler e fazer contas foi contratado como auxiliar, porém, sob os conselhos da cortesã, nunca se colocou como subordinado e nem se deixou humilhar por ele.
Sidarta, então, desenvolveu o orgulho e conseguiu, mais tarde, tornar-se sócio daquele que foi seu patrão. Um dos motivos dessa conquista foi creditado justamente por ter desenvolvido características de samana, pois segundo o personagem:
“Todas as pessoas são capazes de alcançar os seus objetivos, desde que saibam pensar, esperar, jejuar.”
(Jejuar serviria pra poder esperar melhor, pois se ele não soubesse jejuar aceitaria qualquer condição de subexistência.)
Apesar de envolvido com os negócios, jogava com eles como se fossem uma brincadeira, pois seu principal foco era Kamala. De maneira geral, achava as pessoas infantis e animalescas: “Via como labutavam, sofriam, envelheciam por causa de assuntos que não lhe pareciam valer tamanho esforço e como se empenhavam em obter dinheiro, prazeres minúsculos, honrarias insignificantes. Ouvia como se censuravam e se insultavam mutuamente, como choravam suas dores que fariam rir a um samana, e notava o quanto lhes custavam certas privações que um samana nem sequer sentiria.”
Com o passar do tempo, começou a cansar-se daquela rotina de brincadeiras. Tinha vontade de entregar-se totalmente àquele mundo, mas não conseguia, pois a forte angústia voltara. Como reflexo disso, tornou-se sarcástico, avarento e incapaz de amar por não ser “tolo o suficiente”. A sensação de volúpia em ligação direta com a sensação de morte o sufocava e o medo da velhice entregue àquela vida considerada sem sentido tomava conta de si.
Certa noite sonhara com um pássaro canoro que se encontrava mudo e morto dentro de uma gaiola. No sonho, Sidarta se desfaz dele e sente o aprofundamento da angústia sentida até então.
Resolve abandonar a cidade e suas riquezas.

Latência
A maioria se habituara, mas ela sabia que eram tempos difíceis.
O multicolorido das prateleiras envernizava a realidade. Mesmo não alcançando os produtos que continham uma dose maior de felicidade, a maioria pensava que se estivessem em uma guerra não haveria tanta fartura.
Ainda que não utilizasse o microscópio da reflexão, Ana Luzia conseguia notar tudo aquilo.
Caminhando pelo supermercado durante as compras escolhia apenas aquilo que não a apetecia. A insipidez dos sabores era sua grande e inconsciente aliada para lhe lembrar a náusea que aquele mundo provocava.
No caixa ouviu um “bom dia” e antes que pudesse responder foi interrompida:
- Pagamento em cheque ou dinheiro?
Sem se perturbar levou o pensamento à mesa onde seriam postos os alimentos recém-adquiridos. Em volta dela sua família. A mais autêntica imitação das propagandas de margarina: a mão materna deslizando suavemente sobre os talheres enquanto o pai sorridente lê o jornal; ao lado seu irmão retratando o que parecia ser o eterno entusiasmo que os poucos anos empresta.
Com as compras em mãos, Ana Luzia caminhava em direção ao seu prédio enquanto observava as pessoas. Podia vê-las portando telefones que perpetuavam a incomunicabilidade, aparelhos musicais tocando trilhas sonoras do silêncio que impregnava o cotidiano... E toda aparelhagem em miniatura... A cada ano menor, assim como os desejos e as verdades.
As camadas de beleza em oferta camuflavam expressões de experiências marcadas nos rostos daqueles que transitavam. E eram faces tão parecidas! Podia jurar tê-las visto em algum anúncio de TV ou outdoor.
Ela poderia fazer perguntas sobre o que via e sabia disso! Mas não ousava.
Sem aviso a vertigem tomou conta de si. Não era uma sensação nova, mas seu motivo não era tão óbvio que pudesse ser descoberto pelos médicos.
Entre o cambalear dos pés pôde perceber: não era uma simples tontura. Era a correnteza do que deveria ser a afastando daquilo que já era e que ela forçava em permanecer.
Assim, evitou apoiar-se nas paredes para recobrar o equilíbrio como sempre fazia. Simplesmente deixou-se levar e seus movimentos a guiavam para uma via oposta àquela que sempre seguiu.
Conforme ia se afastando do antigo caminho notava que seus pés retomavam a coerência e que a euforia a preenchia, pois sua visão passou a conhecer uma nitidez que nunca imaginou existir.
“Então é assim que as coisas são!” – pensou.
As cores em volta tornavam-se cada vez mais intensas, mas não feriam os olhos – pareciam mesmo acordá-los.
A sonoridade uniforme do ambiente de súbito deu lugar a um forte estampido e aos poucos sentiu em sua boca o gosto de sangue.
Luzia sorriu com a sensação de finalmente experimentar o sabor da vida. Da vida em seu estado verbal.
Bem aqui do lado você pode ler a proposta do blog: treinar os olhos de ler e desenvolver a escrita.
Desenvolver: isto é, não é uma seleção dos melhores escritos!
Mas por que estou escrevendo isso? Porque escrevi algo tão clichê pro blog que já vou me defendendo logo!
Se formos analisar é certamente estúpido o medo de publicar algo em um blog perdido entre milhares em um espaço em que até se tolera o “miguxês”... mas o que está em questão não é a qualidade da escrita em si, mas a revelação da minha pobreza de espírito. E isso fere o ego.
Vou precisar de uma dose a mais de cara de pau pra publicar meu conto mesmo sabendo que haverá comentários dizendo que ele é bem legal só para que eu visite o blog de quem comentou e que possivelmente nem terminou de ler o que escrevi. O ego ficaria preservado, mas felizmente o ser humano é capaz de ter auto-crítica (pelo menos a princípio).
Enfim... o post ficou bem pessoal, mas foi uma maneira de pedir desculpas pela falta de atualização e pela blogueira covarde que estou me saindo.
O Poder das Palavras
“...palavras são erros, e os erros são seus...”-Legião Urbana
Como é possível uma invenção humana tão imaterial e fugaz, adquirir tamanha força e, em alguns casos, permanecer indelével na mente humana?
Pode parecer um lugar comum, mas uma cicatriz, um trauma físico, etc, podem deixar marcas em nossos corpos.Contudo, essas marcas não produzem mais nenhum tipo de dor, esta foi uma sensação pontual, restrita a um certo tempo, num lugar do tempo passado.Além disso, é possível remover marcas de nossos corpos cirurgicamente.
No entanto, uma palavra maldosa ou com o intuito de nos ferir, produz uma dor muito mais profunda do que a dor física.Essa dor dura tanto tempo quanto nossa lembrança persista.
Esse “ferimento” pode permanecer oculto em nossas mentes por muito tempo,mas basta uma palavra lida ou ouvida para trazer à tona toda aquele turbilhão de pensamentos retidos no fundo de nossas almas.A dor produzida pode demorar mais um tempo enorme de nossas vidas para assentar novamente,dragando-nos, de novo, para aquele universo há tanto tempo deixado para trás. A dor desencadeada pela lembrança é muito mais pungente e persistente.
Além disso, é incrível como uma simples palavra ao mesmo tempo fixe uma emoção humana e seja incapaz de defini-la.Explico melhor: a palavra “amor”, por exemplo, desencadeia uma série de sensações em nós, todos sabemos como é sentir o amor.Entretanto, até hoje nunca vi nenhum ser humano definir “amor” por meio de palavras.Somos os criadores, mas não conhecemos profundamente nossas criaturas.
Do mesmo modo, é admirável como um pouco de tinta impressa em um pedaço de papel ou um “pixel” na tela de um computador, possa desencadear toda essa gama de sensações, tocando fundo algumas cordas dessa lira chamada alma humana.
Assim, cuidado com seus “erros”, pois “os erros são seus”.Tenha cautela ao lançar palavras, e também ao recebê-las.
Outro elemento presente em todo o livro é essa empáfia dos que detêm algum tipo de poder na sociedade.Primeiro o coronel da repartição pública, onde houve o incidente do oficio em Tupi.O coronel se sente indignado quando não consegue identificar que língua era aquela.Diz ao major que só porque estudava um francesinho ali, já se achava um sábio.Dizia que um coronel formado na academia, com notas altíssimas em tal matéria não seria afrontado daquela maneira.
Esse é só um exemplo, mas essa “empáfia” está presente em todos os poderosos, os quais tomam suas decisões não por convicção moral ou ideológica, mas calculando qual o impacto de suas decisões na imagem e no prestigio de que dispunham perante a sociedade.
Novamente, um retrato moderno do Brasil.Esse comportamento é bem recorrente na classe política em geral.
De modo que fica a duvida:como um país cresce com as decisões sendo tomadas com base na imagem, em vez da moral e idoneidade de caráter?
Mais uma vez, o livro parece ter sido escrito nos tempos atuais.
Num determinado momento Quaresma diz:”-Mas é um erro(...) não proteger as industrias nacionais”.Pois é, parece que depois de quase 100 anos essa pergunta ainda precisa ser feita...onde está o governo quando o pólo que alavanca o desenvolvimento, isto é, a indústria, precisa de ajuda para se consolidar e se tornar, no futuro, competitiva?
Noutro lugar temos:”-É curiosa essa coisa das administrações militares:as comissões são merecimento,mas só as dá aos protegidos”.Algum paralelo com a nossa realidade?
Também faz alusão aos cortiços do Rio de Janeiro e da falta de comida das populações interioranas.
Além disso, em outro ponto há uma possível sugestão de reforma agrária...
Com certeza esse é o ponto emblemático do livro.Afinal, o que isso representa?
O major foi cultivar o seu sitio, o “Sossego”, mas, apesar de seus esforços, as formigas devastaram sua produção agrícola.
Parece que as formigas representam aquilo que no começo é invisível, depois passa a ser ignorado e, no fim, aparece com força total e devasta tudo.
As formigas são tudo aquilo que consideramos pequenino:uma corrupção ali, um infração, uma transgressãozinha da lei, uma furadinha de fila, um jeitinho de não pagar uma taxa, etc.Tudo isso, separadamente, parece ser inofensivo, mas quando juntamos tudo, vemos a verdadeira praga que é.Praga que acaba por arrasar o patriotismo e, por extensão, retardar ou impedir o progresso do Brasil.
Lima Barreto também tem um certo lirismo filosófico em algumas partes do livro, principalmente nas passagens descritivas.Se bem que as descrições começam líricas e terminam com um quê de pessimismo, de amargor.
Esse é um autor genial, muito à frente de seu tempo, merecendo um destaque maior do que possui atualmente.
Por fim, o livro é uma verdadeira obra-prima, pois continua atual, moderno e instigante, independentemente da época em que foi concebido.
É incrível como Lima Barreto conseguiu construir um livro que ainda retrata o Brasil dos dias atuais.Vamos a alguns desses aspectos.
O major Policarpo Quaresma é aquele que conhece o potencial do Brasil e luta para que nosso país alcance uma elevação.Mas o que ele ganhou com isso?Nada!Como ele mesmo diz, seu tempo de vida foi perdido e, no fim, é executado pelo governo Brasileiro sob as rédeas de Floriano Peixoto, o marechal de ferro.
Isso expõe bem o que é tentar ser um patriota nesse país, é ser tachado de ingênuo, de idiota ou pior, de louco.Nós temos uma espécie de “determinismo” social, o qual no diz que o Brasil é assim mesmo e nunca vai mudar, para que então se enveredar nessa fantasia absurda de patriotismo e desenvolvimento futuro?
Tudo o que vem de fora é melhor, mais sofisticado, mais seguro.Após 500 anos de história e de uma pretensa independência, ainda temos a ideologia do colonizado, ou seja, a metrópole do momento guiará nossos rumos e suprirá nossas necessidades.Necessidades que são língua, cultura, religião, etc.Pouquíssimos traços culturais são genuinamente brasileiros, a maioria é importada e, o mais revoltante, ninguém se dá conta disso.
Lima Barreto expõe bem essa ferida em alguns episódios ao longo do livro.Primeiro a vontade do major em aprender a tocar violão e sua busca obsessiva por modinhas de viola realmente nacionais.Tristemente o major descobre que a maioria delas é importada e não retratam a nossa realidade.
Esse episódio é tocante, pois demonstra a procura de um homem por uma verdadeira expressão nacional e sua tristeza e angustia por não conseguir achá-la.
Depois o famoso caso do oficio em tupi.É a demonstração crua de como não temos sequer uma língua nacional e aquela que poderia sê-lo, o Tupi, é considerada uma língua de aborígines subdesenvolvidos.
Essa é a angustia do livro, a explicitação da nossa completa falta de identidade nacional.
O patriotismo é inútil e todo aquele que resolver abraçá-lo será devidamente fuzilado.
Como o próprio nome já diz, estamos analisando o “coração dos outros”, ou seja, as pessoas em geral.Esse personagem é um fiel amigo do major, sempre estando lá para auxiliar e ser companheiro.Violeiro de mão cheia e compositor belas modinhas é, contudo, um tanto relapso no arquivamento de sua obra.Além disso, não gosta de um “preto” violeiro que surge como seu rival musical no panorama social da época.
A metáfora de Lima Barreto pode ser essa:
Aparentemente o “coração dos outros” tem forte ligação com o patriotismo(=Quaresma), mas como não tem uma forma final e cristalizada(=o desordem no arquivamento da obra) acaba por não conseguir salvar o patriotismo do fuzilamento.Talvez pela pouca força patriótica do povo em geral, ou talvez pelo descaso generalizado por ele.
O mais chocante é a “rixa” entre o “coração dos outros” e o “preto” violeiro.Aqui, Lima Barreto denuncia o extremo preconceito racial existente no Brasil em todas as épocas de nossa história, sugerindo que o povo brasileiro diz algo como: o Brasil não precisa da contribuição do negro como parte de nossa terra, ou seja, o patriotismo dispensa essa “ajuda”.
Chocante e infame, comportamento típico de gente estúpida e ignorante, mas, infelizmente, presente na nossa sociedade.Lima Barreto expõe feridas que ainda não cicatrizaram...
Não, não digitei errado... Escrevi OUVIR um livro mesmo!
Depois do e-book (um grande quebra-galho para todos aqueles que querem ler mais livros do que seu bolso permite pagar) a novidade agora são os audiobooks.
Provavelmente (chutando por alto) a iniciativa tenha surgido com a proposta de socializar obras para portadores de deficiência visual e hoje em dia se tornou uma maneira prática e quase milagrosa para aquelas pessoas que precisam ler além de cuidar da(o) saúde-estética-filhos-relacionamento amoroso-higiene pessoal e da casa-locomoção além de trabalhar e estudar (ufa!), podendo carregar a leitura em seu mp3 player, celular ou qualquer parafernália tecnológica que o valha!
Parte dos audiolivros que encontrei pode ser acessado de forma gratuita, porém começa a nascer um mercado para venda dessa nova maneira de “ler” (http://www.audiolivro.com.br).
Curiosa e seduzida pela propaganda resolvi experimentar e ouvir trechos de dois livros. Um dele foi a amostra de “A mulher que escreveu a bíblia” (Moacyr Scliar), encontrado no site citado acima e “Triste fim de Policarpo Quaresma”, recolhido gratuitamente através do site www.4shared.com .
Minha impressão é de que ou os audiolivros não terão futuro ou eu tenho sério problema de déficit de atenção!
Sinceramente achei muito ruim me concentrar na história quando o tempo inteiro estou cercada de apelos, principalmente visuais, me desviando do enredo! Não tem jeito! Aquelas duas páginas tem um poder de nos absorver que apenas uma voz vinda do “além” não conseguirá substituir!
Sem contar a economia de exercício imaginativo que temos ouvindo a história!
Com um narrador onisciente talvez o problema não seja tão grande, mas quando o narrador é também um personagem fica muito estranho ter já dada a entonação e até o timbre da voz de uma personalidade que provavelmente terá incontáveis facetas para cada “leitor com olhos” (e não com os ouvidos - ?!).
O engraçado é geralmente crianças adoram ouvir histórias... Provavelmente eu era uma delas, mas hoje...Talvez minha visão tenha sido mais treinada para captar sutilezas do que minha audição...
É... de repente ouvir um livro pode ser um bom exercício... Ou não...
Após ler “Triste fim de Policarpo Quaresma” fiz minhas “andanças virtuais” e percebi que talvez Lima Barreto seja um dos autores mais injustiçados da literatura brasileira!
Classificado por muitos como um autor “chato”, escritor de obras enfadonhas, me pergunto se estou “vendo coisas” quando o coloco no mesmo patamar de Machado de Assis.
A comparação não é exagerada quando vemos o quanto Barreto é crítico e irônico em seu livro. Talvez o vocabulário nos exija um pouco mais em relação às obras de Machado de Assis, mas isso não faz perder a qualidade de seus escritos. Eu diria que é até interessante ter contato com tantas palavras novas...
Como “Triste fim de Policarpo Quaresma” é leitura obrigatória em alguns vestibulares – talvez seja essa a origem de tantas críticas em relação ao autor que tem que ser “engolido a seco” por algumas pessoas – acredito que o número de resumos do livro pela Internet já é suficiente para quem quer ter uma idéia geral sobre sua história (e para os dedos ávidos por “ctrl c, ctrl v” também), por isso opto por comentar algumas características e passagens dela.
A história do protagonista – Policarpo Quaresma – se passa no início da República Velha durante os governos militares. Inspirado em anos de estudos, Quaresma, um funcionário público, decide colocar em prática seus ideais de reafirmação de identidade nacional. No início seus planos eram modestos, apostando principalmente na música popular ao tomar aulas de violão com o principal seresteiro da cidade. Essa simples atitude foi alvo de comentários diversos pelo bairro, pois bem se via que a valorização de algo popular, relacionado geralmente à vadiagem e à população de baixa renda, causava espanto naqueles que viam Policarpo como um erudito.
Então fica uma questão: será que a identidade nacional aliada às características populares era realmente uma identificação politicamente bem aceita?
A resposta talvez esteja quando Quaresma resolve apostar na oficialidade da língua tupi, considerada por ele a língua materna de todos os brasileiros. Essa postura causou tanto escândalo que foi tachado de louco e internado em um sanatório.
Nessa altura da obra já não sabemos a quem Barreto dirige as críticas: àqueles que presos nos livros perdem o “chão da realidade” propondo idéias consideradas absurdas ou à sociedade embrutecida pelo mundo concreto aparentemente imutável. De qualquer maneira o narrador demonstra simpatia pelo personagem, envolvendo também o leitor:
“Vivendo há trinta anos quase só, sem se chocar com o mundo, adquirira uma sensibilidade muito viva e capaz de sofrer profundamente com a menor coisa. Nunca sofrera críticas, nunca se atirou à publicidade, vivia imerso no seu sonho, incubado e mantido vivo pelo calor dos seus livros. [...] Esse encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de estranho a tudo, às competições, às ambições, pois nada dessas coisas que fazem os ódios e as lutas tinha entrado no seu temperamento. Desinteressado de dinheiro, de glória e posição, vivendo numa reserva de sonho, adquirira a candura e a pureza d’alma que vão habitar esses homens de uma idéia fixa, os grandes estudiosos, os sábios, e os inventores, gente que fica mais terna, mais ingênua, mais inocente que as donzelas das poesias de outras épocas. É raro encontrar homens assim, mas os há e, quando se os encontra, mesmo tocados de um grão de loucura, a gente sente mais simpatia pela nossa espécie, mais orgulho de ser homem e mais esperança na felicidade da raça.”
Após ter sido escorraçado por um coronel em decorrência de um ofício escrito em tupi, Policarpo se encontra com Ricardo Coração dos Outros, o seresteiro, no bonde e o seguinte diálogo ocorre:
“- É bom pensar, sonhar consola.(Ricardo)
- Consola, talvez; mas faz-nos também diferentes dos outros, cava
abismos entre os homens.... (Quaresma)”
Durante a internação de Policarpo Quaresma, o autor nos faz refletir sobre a loucura. É interessante ressaltar que as reflexões não são meras especulações, mas sim fruto de uma internação real sofrida por Barreto.
“Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não há mais semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que ele vem a ser após. E essa mudança não começa, não se sente quando começa e quase nunca acaba.[...] A loucura declarada, a torva e irônica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra, que nos rebaixa...”
Descrevendo a viagem da afilhada de Quaresma e seu amigo ao hospício, o autor nos expõe o fato de que não só a morte nivela todas as classes sociais. A “loucura, o crime e a moléstia” também são capazes de diluir as diferenças “que inventamos”.
Após a alta do manicômio, Lima Barreto nos mostra um pouco da sociedade em que Quaresma estava inserido. Seus vizinhos e amigos cercados de etiquetas e fracas morais ressaltam a hipocrisia da valorização do academicismo que, mais do que produção de conhecimento, serve naquela (e por que não ainda na nossa) sociedade como um símbolo de status.
Recuperado, Policarpo se aposenta e decide mudar-se, juntamente com sua irmã, para um sítio. Lá, inspirado pelos cânticos sobre as férteis terras brasileiras, nosso protagonista tenta provar com a prática tudo o que havia lido. A realidade rural do período é denunciada através da voz de um trabalhador rural dizendo que o governo incentivava mais os estrangeiros (alemãs e italianos) a ocuparem as terras do que os que lá já estavam arraigados. Quaresma reflete também sobre a problemática, sempre atual, da questão agrária: “E a terra não era dele? (do trabalhador rural) Mas de quem era então, tanta terra abandonada que se encontrava por aí? Ele vira até fazendas fechadas, com as casas em ruínas... Por que esse acaparamento, esses latifúndios inúteis e improdutivos?”
As saúvas também foram preocupação de nosso herói que tentava salvar a qualquer custo seus planos de agricultor. Nesse episódio lembramos o que futuramente Mario de Andrade ironiza em “Macunaíma” (“Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são”).
Nessa altura do livro vemos também uma demonstração de como funciona a política rural brasileira baseada no coronelismo, quando há uma pressão para que Quaresma se alinhe a um dos “coronéis” das redondezas da terra em que se instalou. Policarpo tenta se esquivar das duas influências políticas locais, mas acaba por ser mal falado na região.
A frustração com as mínguas que sua terra produzia mais a notícia de que o governo central necessitava de apoio bélico contra os marinheiros revoltosos fez com que Quaresma retornasse à capital. Lá chegando, induzido pelos organizadores da resistência, compra o título de major e presta serviços quase que braçais aos oficiais superiores.
Enquanto o leitor acompanha a seriedade do protagonista em lidar com as questões da guerra, vemos os altos oficiais lidarem com essa realidade como se ela fosse mero divertimento.
Ferido em combate, Quaresma cai em si. Podemos ver essa postura na carta que envia a sua irmã: “Eu duvido, eu duvido, duvido da justiça disso tudo, duvido da sua razão de ser, duvido que seja certo e necessário ir tirar do fundo de nós todos a ferocidade adormecida, aquela ferocidade que se fez e se depositou em nós nos milenários combates com as feras, quando disputávamos a terra a elas... E não vi homens de hoje; vi homens de Cro-Magnon, do Neanderthal armados com machados de sílex, sem piedade, sem amor, sem sonhos generosos, a matar, sempre a matar...”. Como se não bastasse também vê prisões e mortes injustas praticadas por aqueles que defendia. Resoluto em solucionar essas questões, manda uma carta para o presidente Floriano Peixoto – anteriormente receptivo – e acaba sendo preso sob denúncia de “traidor da causa”.
Apenas sua afilhada e seu amigo seresteiro tentam soltá-lo, mas o fim da obra e o próprio contexto dão a entender que todos os esforços serão em vão.
Em suas reflexões finais Quaresma se questiona: “Mas, como é que ele tão sereno, tão lúcido, empregara sua vida, gastara o seu tempo, envelhecera atrás de tal quimera? Como é que não viu nitidamente a realidade, não a pressentiu logo e se deixou enganar por um falaz ídolo, absorver-se nele, dar-lhe em holocausto toda a sua existência? Foi o seu isolamento, o seu esquecimento de si mesmo; e assim é que ia para a cova, sem deixar traço seu, sem um filho, sem um amor, sem um beijo mais quente, sem nenhum mesmo, e sem sequer uma asneira!”
O fim do livro não nos deixa dúvida em concordar com o adjetivo do título, além de nos fazer refletir até que ponto é válida essa busca pela pseudo unidade subjetiva de um agrupamento social.
Além dessas características que envolvem o personagem principal, podemos destacar os comportamentos femininos. Todas as mulheres seguem o destino traçado pela sociedade (de casarem e serem boas esposas – com exceção à “rebeldia” de Olga, afilhada de Quaresma, que desobedece ao marido e tenta soltar seu padrinho), porém nenhuma vê lógica e nem tem vontade de seguir essas normas. Se se casam é porque todas assim o fazem, porque essa é a única opção e “meta de vida” para uma mulher na sociedade. É interessante notar a personagem Ismênia, vizinha de Quaresma, que chega a ficar doente e morrer após ruptura de noivado, mesmo não tendo demonstrado entusiasmo durante a relação com o noivo (nota: vale a pena acompanhar as reflexões sobre a morte que o autor coloca quanto trata sobre Ismênia). Adelaide, irmã do protagonista da história, apesar de tutelada por seu irmão não seguiu o - dito no período - “melhor caminho” destinado às mulheres.
Outra crítica feita na obra que podemos destacar é ao pensamento positivista predominante nos primeiros anos da República (“Eram os adeptos desse nefasto e hipócrita positivismo, um pedantismo tirânico, limitado e estreito, que justificava todas as violências, todos os assassínios, todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição necessária, lá diz ele, ao progresso e também ao advento do regime normal, a religião da humanidade, a adoração do grão-fetiche, com fanhosas músicas de cornetins e versos.”).
Nossas últimas leituras foram recheadas de idealistas (Capitão Birobidjan e Policarpo Quaresma), mas nas duas obras vemos que cada autor direciona o idealismo pra um aspecto. O primeiro enfatiza o idealismo que toma traços autoritários e incoerentes e no segundo mostra o romantismo e os aspectos negativos que ele traz pra quem sonha algo que não corresponde aos interesses dos poderosos. De qualquer maneira fica evidente que a falta de “diálogo” entre teoria e prática podem ser extremamente prejudiciais.
“Os governos, com os seus inevitáveis processos de violência e hipocrisias, ficam alheados da simpatia dos que acreditam nele; e demais, esquecidos de sua vital impotência e inutilidade, levam a prometer o que não podem fazer, de forma a criar desesperados, que pedem sempre mudanças e mudanças.”
“Só se pode ser bom quando se é forte de alguma maneira.”
"- Eu não posso compreender esse tom divino com que os senhores falam da autoridade. Não se governa mais em nome de Deus, por que então esse respeito, essa veneração de que querem cercar os governantes?
O doutor, que ouvira toda a frase, não pôde deixar de objetar:
- Mas é preciso, indispensável... Nós sabemos bem que eles são homens como nós, mas, se não for assim tudo vai por água abaixo.
Quaresma acrescentou:
- É em virtude das próprias necessidades internas e externas da nossa sociedade que ela existe... Nas formigas, nas abelhas...
- Admito. Mas há revoltas entre as abelhas e formigas, e a autoridade se mantém lá à custa de assassínios, exações e violências?
- Não se sabe... Quem sabe? Talvez... fez evasivamente Quaresma.
O doutor não teve dúvidas e foi logo dizendo:
- Que temos nós com as abelhas? Então nós, os homens, o pináculo da escala zoológica, iremos buscar normas de vida entre insetos?
- Não é isso, meu caro doutor; buscamos nos exemplos deles a certeza da generalidade do fenômeno, da sua imanência, por assim dizer, disse Quaresma com doçura.
Ele não tinha acabado a explicação e já Olga refletia:
- Ainda se essa tal autoridade trouxesse felicidade - vá; mas não; de que vale?"
Lima Barreto
(Rio de Janeiro, 1881-1922)
Era mestiço e teve origem humilde.Esteve internado em hospícios e era alcoólatra, que acabou por levá-lo à morte.
Artista eclético,produziu contos e crônicas sempre com um teor forte de critica social, denunciando os preconceitos sociais contra os mestiços e pobres da época.
Para se manter foi funcionário público, mas seus rendimentos eram minguados por conta do preconceito que sofria, pois as promoções pareciam nunca chegar para esse Brasileiro.
Esses desajustes sociais eram refletidos em seus livros e escritos,de modo a descortinar a estupidez daquela época, que ainda persiste na sociedade atual.
Para agüentar esses males recorreu ao alcoolismo como válvula de escape.O que, infelizmente, acabou por levar um dos artistas mais talentosos da época.
Aparentemente, no Brasil, a velha máxima de estudar os erros do passado para não repeti-los é desconhecido.

Em Belo Horizonte: estátuas em tamanho natural de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende (amigos que serviram de inspiração para compor personagens do livro “O encontro marcado”).
"Quando você faz 20 anos está de manhã olhando o sol do meio dia. Aos 60 são seis e meia da tarde e você olha a boca da noite. Mas a noite também tem seus direitos. Esses 60 anos valeram a pena. Investi na amizade, no capital erótico, e não me arrependo. A salvação está em você se dar, se aplicar aos outros. A única coisa não perdoável é não fazer. É preciso vencer esse encaramujamento narcísico, essa tendência à uteração, ao suicídio. Ser curioso. Você só se conhece conhecendo o mundo. Somos um fio nesse imenso tapete cósmico. Mas haja saco!"
Hélio Pellegrino em carta escrita 40 anos depois daquela que serviu de epígrafe para o livro “O encontro marcado” de Fernando Sabino
Fonte: http://www.releituras.com
Em alguns momentos de nossas vidas sentimos uma necessidade de preencher uma carência, um “buraquinho” que se forma em nossas almas.”Buraco” que pode ser preenchido com a leitura de um livro que nos agrade e nos complete naquele momento.
Em dias que estamos completamente derrotados, por que não alegrar nossas vidas com a leitura de um livro que nos bote para cima?
Nos dias em que estamos com carência afetiva por que não preenchê-la com a leitura dos sonetos líricos de Camões?
Vejo a Literatura como uma “cera”, que ao ser bebida entra por todos os espaços vazios do nosso Ser, solidificando-se.Então, o que era uma “peneira” totalmente amorfa num primeiro momento, posteriormente adquire uma forma definida e desprovida de ambigüidades.
Desse modo, quando estamos com algum “buraquinho” na alma (causado por um sem-número de problemas e/ou imprevistos), este pode ser tampado com a Literatura, que, assim, assume a função de completar as carências inerentes à alma humana e de aprimorar nosso interior.
Como o homem não possui uma interioridade completamente consolidada, é normal sempre apresentarmos algum tipo de carência, um “buraquinho” que sempre está lá, como a nos lembrar de que não somos tão sólidos quanto pensamos ser.Logo, vê-se a importância da Literatura na co-evolução junto ao homem, no sentido de ser uma necessidade e não uma mera atividade de lazer e divertimento.
Assim, Ler é trabalhar para se tornar uma pessoa completa, plena, e caminhar na trilha da formação do nosso ser, com o intuito de ter uma interioridade bem desenvolvida, sabendo exatamente quem somos, o que queremos e para vamos.
Se algumas pessoas trazem mudanças em nossas vidas, pessoas que nos apresentam livros deixam marcas incontestáveis!
Por mais variados que sejam os motivos que levam alguém a recomendar, emprestar ou presentear com um livro esse ato acaba sendo gerador de fortes vínculos. Vínculos que podem se dar através da ligação dessa pessoa com algum personagem – alvo de identificação e fascínio intensos que levou à recomendação da leitura -, ou com a visão que ela tem de você – quem nunca se corroeu de curiosidade quando alguém falou que quando leu um livro se lembro de você? - ou até mesmo de uma fase de sua vida.
Dentre os livros que li, alguns são bem difíceis de falar sem fazer referência a alguém.
Com “O Vampiro Lestat” e “Entrevista com o vampiro” pude refletir sobre a angústia da suposta dualidade humana. Esses livros demarcaram minha fase de leitura obrigatória escolar para a leitura por iniciativa e prazer. Costumo dizer que quem me apresentou esses livros criou um marco finalizador na formação da minha personalidade. Ela nega, mas poucos fatos são tão verdadeiros quanto esse.
O tom forte e profético de William Blake reforçou a lógica admirável – que não sou capaz de alcançar – de quem, querendo ou não, ajudou a traçar alguns rumos para minha vida.
Em “O fio da navalha” a personalidade do personagem principal que ora some, ora se revela sempre de maneira encantadora em busca pelo seu Caminho faz lembrar também quem me deu o livro...
“Como me tornei estúpido” foi o último livro apresentado por alguém que me deixou marcas. História em momento providencial que ainda ressoa na minha cabeça.
Enfim... todas essas vivências literárias “marcaram” pessoas ao mesmo tempo em que elas deram um sabor a mais nas histórias.
Por mais que ouço reclamarem, eu digo: Ganhar/ser apresentado a livros é muito bom!